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segunda-feira, 4 de agosto de 2008

O duplo.

"Só um double mesmo," respondi. Referia-me, claro, ao adjetivo duplicador da quantidade de carne no sanduíche. "O double está em falta, senhor," replicou aquele que em pouco tempo tornar-se-á o antagonista dessa história. "Não tem mais?", perguntei mais para mim mesmo que para a pessoa de boné. "Como eu disse, senhor, está em falta." "Em falta como?" "Senhor, hoje não temos mais como servir o double." O atento leitor certamente deve (se é que é possível atribuir-se certeza e em seguida fazer-se uso do verbo dever enquanto referente à dúvida) ter notado o malicioso uso da palavra senhor por parte do caixa da lanchonete. Caso algo de maior importância tenha-me roubado vossa digníssima atenção (se é que um dia esta me pertenceu), coloco-me na posição de fornecedor de uma explicação curta, mas segura. Sendo assim, caso o leitor já saiba o mínimo denominador comum das minhas suspeitas, sugiro que pule as próximos 1.450 caracteres, já que não posso tratar aqui em termos de parágrafos ou mesmo linhas (visto a minha dependência vergonhosa da distribuição espacial aparentemente arbitrária do processador de texto que governa esse blog). No entanto, antes de tratarmos do uso maquiavélico da palavra senhor, quero deixar claro que o número de caracteres citado logo acima é preciso, acurado e inclui, inclusive, o espaço após o último dígito. Dito isso, voltemos à malícia do caixa: Na primeira frase proferida pelo funcionário da lanchonete nesse texto, este posicionou a palavra senhor no terminal da frase; e nas frases subseqüentes essa mesma palavra foi empurrada (sem qualquer tipo de consideração) para uma posição mesial e primeira. Trata-se de uma transposição que revela um crescente nível de impaciência e, ao mesmo tempo, busca (num nível inconsciente) submeter aquele a que se dirige as assertivas a uma condição sub-humana, a um papel de servo, de mero criado no qual um cuspe na cara seria muito pouco se nivelado às coisas que tal abominação mereceria. Assim, por crer na alta educação do leitor, estou certo de que a cólera que de súbito erupcionou da minha garganta lhe soará totalmente justificada. Na frase a seguir estarei, portanto, dando continuidade à narrativa interrompida com o intuito de denunciar o caráter demoníaco do caixa que me negou o double; sendo assim, a contagem de caracteres (sem levar em conta o ponto final a seguir) terminar agora. "Vai tomar no cu, seu filho da puta do caralho!", gritei esbofeteando-lhe a face. Por algum motivo, aquilo gerou uma certa comoção entre alguns clientes da loja. É em momentos assim que me lembro do quão falso-moralista é o mundo. Pelo menos ninguém tentou me segurar e, por dever cívico, continuei: "Seu corno nojento, trate de preparar o meu double!" "Mas não tem, senhor...", respondeu baixinho a abominação que, de certo, defecara-se de medo (e é isso que aqueles que sabem que estão errado fazem: defecam-se no interior das próprias calças). "Não me chame de senhor, porra! NÃO ME CHAME DE SENHOR!", disse apontando-lhe na face. Acho que os sons gerados nesse tipo de situação chamou a atenção do superior daquele caixa e, de repente, um rapaz e seu crachá de gerência se aproximaram. "Senhor, posso saber o que está acontecendo?" Por ter uma boa educação, eu sabia que não deveria descontar meu ódio em alguém que acabara de se introduzir na discussão (e, possivelmente, com boas intenções). "Esse infeliz demoníaco, essa criatura rastejante, esse pigmeu leproso acabou de me negar um double por estar em falta!" "Calma, senhor, sugiro que se sente para conversarmos." O homem-crachá estava a um passo de colocar-se numa situação que - estou certo - não desejaria estar. "Não vou sentar e não estou nervoso e não me chame de senhor e me dê meu double agora. Não tem como estar em falta um sanduíche cuja única diferença de um outro mais simples é a adição de uma carne extra. Isso não existe! É só colocar uma carne a mais e voilá, temos o meu double." Ah, confesso que nesse momento fui muito mais solícito, paciente e doce do que costumo ser. Praticamente entreguei a chave da sabedoria para o inimigo, o perdão para o profano, a paz para guerra. "Olha, não é tão simples quanto parece, senhor..." Pois é. O crachá teve a ousadia de desferir-me um golpe logo após ter como oferta a paixão divina. Por ser humano, não me contive. "JUDAS! QUEIME AGORA!", gritei projetando meu cotovelo contra seu pomo-de-adão, golpe este que aparentemente o fez perder a consciência (se é que o infeliz crachá algum dia teve alguma). Mas, como todos sabemos, o mundo é injusto e por ser um só não resisti à força física da massa falaciosa que nos rege. Em segundos me imobilizaram e me golpearam. Na delegacia conversei com o delegado, mas este não parecia muito interessado na temática da minha narrativa e logo me liberou. Assim que cheguei em casa peguei o telefone e pedi: "Só um double mesmo."


Fonte de inspiração: Astronomy Picture of the Day, 21/07/08

quarta-feira, 28 de maio de 2008

O sino da liberdade.

"Foi normal, nada demais," ele respondeu. Eu tinha-lhe perguntado quais foram suas impressões a respeito do seu primeiro dia de malhação numa simpática academia que abrira há seis meses na rua de trás. "Conheceu alguém interessante?", perguntei tentando esconder a insegurança. "Tinha um rapaz lá muito boa gente." Aliviada por seu interesse não ter sido investido em alguém do sexo oposto, continuei: "Será que eu conheço?" A pergunta faz sentido já que, conforme dei a entender no início do parágrafo, a academia localiza-se bem perto de onde moro. "Talvez, é um bem grandão. Ele é profissional." Pensei um pouco e não pude lembrar de ninguém, "Halterofilista?" "Isso." "Hum, não conheço. Deve morar em outro bairro." "Ele vai participar do seu primeiro campeonato profissional em Agosto." "Não acho bonito esses homens muito musculosos." "A questão não é essa, o legal é a determinação por trás dos músculos." "Nem venha querer ficar grandão assim." "Tá doida?, mal tenho coragem de malhar pra perder peso, imagine então pra ficar do tamanho de Hermes," ele disse me passando a panela molhada. Puxei o pano de prato e pus-me a enxugá-la. "O que leva alguém a querer ficar tão musculoso nos dias de hoje onde esforço físico é a menor das nossas demandas?" "Além de querer se enquadrar num padrão de beleza pré-estabelecido?" "É, além disso." "No caso de Hermes foi uma promessa." "Promessa?", virei interessada. "Ele prometeu para o pai no seu leito de morte," disse enquanto passava a esponja na frigideira enegrecida de ovo. "Prometeu que ia ser halterofilista?" "É." "Sério?" "Sério." "Do nada?" "O mais engraçado é que foi do nada mesmo. O pai dele nunca, em momento nenhum da vida, expressou qualquer indício de que apreciasse esse negócio de culto ao corpo." "E perto da morte ele pediu para que o filho fosse halterofilista?" Ele me passou a frigideira, "Na verdade ele disse fisiculturista, parece que tem uma diferença. Foram as últimas palavras dele." "Será que esse Hermes não pensou na possibilidade do pai estar delirando nos seus momentos finais?" "Ah, deve ter pensando... mas quando se trata das últimas palavras do seu pai a gente não pode se sustentar em conjecturas." Enxuguei dois copos, virei sorrindo e perguntei, "Então, se tivesse sido seu pai, você faria a mesma coisa?" "Sem sombra de dúvida." Fiquei calada por uns instantes. É engraçado como a morte ou a proximidade dela nos confere um poder quase divino sobre os outros. Quando somos atores ativos conseguimos o que queremos de quem quer que seja por via do medo da própria morte; quando somos atores passivos o poder se estende por aqueles nos ama e pelos que sentem compaixão por via da pena e da nossa capacidade de nos projetar no outro. "Isso pode ser ruim pra você, Glauber." "O quê?" "Pensar assim." "Assim como?" "Assim. Nesse negócio de achar que devemos fazer tudo o que nos pedem os entes queridos em seus leitos de morte." "Eu acho que isso é uma forma de conceder ao moribundo um último desejo; e que seja algo significativo, então." "Pois é, e você acha que ser halterofilista é significativo?" "Ah, mas quem somos nós pra julgar isso?" Senti uma coceira de irritação na garganta. "Se, em seu leito de morte, seu pai pedisse que você me deixasse, você faria isso?" Ele nem olhou pra mim. "Não seja ridícula, meu pai te adora." "Do mesmo modo que o pai de Hermes mal sabia o que era halterofilismo." "Fisiculturismo." "Que seja. Me responda." "Não quero responder isso, Helen. Que coisa boba." "Boba vírgula. A resposta para essa pergunta tem o papel de sustentar, ou não, os alicerces do nosso relacionamento." "Cacete, você vai longe, hein?" "Não fuja da resposta, Glauber." "Tá, pô. Eu te deixaria, pronto, satisfeita?" "Como é? Você me deixaria se seu pai pedisse isso no leito de morte dele?" "Deixaria. Que besteira." "Glauber, não me tire do sério! Quer dizer que se seu pai pedisse para você fazer sexo com nove prostitutas asiáticas ao mesmo tempo você faria?" "Se ele estivesse morrendo?" "Claro, a conversa toda é sobre isso!" "Nove é muito, não sei se agüentaria," o filho da puta respondeu rindo. "Viado do caralho!", gritei atirando o copo contra o chão. "Helen! Que é isso? Calma!" "Calma uma porra, viado! Quer dizer que se seu pai pedisse pra você chupar os testículos de dois bodes ao mesmo tempo, você chuparia?" "Você pirou." "Você preferia as nove putas asiáticas ou os ovos dos bodes?" "As nove putas, eu acho..." "Safado!" "Calma." Depois da briga fui para a casa da minha mãe. Dormi por quatro dias lá. Glauber não telefonou uma única vez. Quando voltei ele não estava em casa, mas os vizinhos avisaram que ele teve que fazer uma viagem urgente para o interior; disseram que o pai dele estava muito mal e sua mãe havia ligado para que ele fosse ver o pai antes que o pior acontecesse. Rezei para que o velho morresse antes que pudesse falar com o filho.


Fonte de inspiração: Astronomy Picture of the Day, 06/05/99

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Na tela de prata.

Nos deitamos na rede e ficamos olhando as estrelas. Em muitos momentos da vida nossos gestos não passam de imitações patéticas daquilo que assistimos no cinema ou na TV. Gostamos de simular aquela realidade, de trazer um pouco de sonho para o que convencionamos chamar de mundo real. Foi por esse motivo, acredito, que nos deitamos na rede e ficamos olhando as estrelas naquela noite de primavera. Não falamos nada um para o outro, embora pudéssemos simplesmente dizer algo como, "Estamos fazendo igualzinho a como se faz no cinema;" "É mesmo, pensei a mesma coisa," responderia ela antes de me beijar com paixão. Mas não. O silêncio nesses casos, nesses momentos em que maquiamos nosso entorno de forma tão consciente, é o laço invisível que dá unidade à cena. Assim como os melhores atores mantêm-se impassíveis a quaisquer desordem fora da cena em que vivem naquele momento, devemos sempre observar as estrelas em silêncio. É lindo. "Eu passei a noite com Hélio ontem," disse-me ela de súbito. Virei rápido, "Como assim?" "Fiz sexo com ele." "Que caralho é isso?", gritei empurrando-a. "Desculpa falar assim do nada. Achei que fosse melhor do que enrolar." "Porra, é sério mesmo?" "Eu não brincaria com uma coisa dessa, mas fique calmo, eu explico." "Explicar o que, cacete!?" Ela ficou calada. "Por quê?", insisti. "Por que, o quê?" "A gente tinha acabado de voltar, eu não mereço isso." "Não é questão de merecer, Sávio. Eu errei, seu irmão errou também." "Piranha!" Ela não respondeu. Fiquei sem saber o que pensar direito. Pipocou-me na cabeça um desejo incontrolável de quebrar pratos e chorar. Coloquei a mão no rosto como se segurasse a parte superior do nariz: o polegar no canto externo do olho esquerdo e o dedo indicador no outro, e último, olho. "Vagabunda do cacete!", gritei mais forte projetando a mão em sua direção como se meus dedos pudessem projetar adagas venenosas contra a sua jugular. "Não precisa exagerar," ela teve a coragem de dizer. "Exagerar?, exagerar?, porra! Enlouqueceu? Você tinha jurado que não ia mais me enganar." "Eu não te enganei, Sávio. Estou cumprindo minha promessa. Contei tudo pra você. Só não contei antes por falta de oportunidade." "Oportunidade pra trepar com ele você teve, né?" Ela fez uma cara de lá-vamos-nós-de-novo e voltou para a rede. Discutimos por duas horas e quarenta. Ela sabia que não havia nenhuma desculpa respeitável para o que fizera na noite anterior, mas mostrou-se verdadeiramente arrependida. Pude ter certeza disso quando ela chorou. Cheguei a sentir uma quantidade razoável de lágrimas pingar na minha perna. Nos abraçamos e como bom cristão concedi-lhe pela terceira vez a graça do perdão. Amores verdadeiros não devem acabar assim, mas sim sob esse belíssimo teto estrelado que, novamente, se exibe para nós. Como nos filmes.


Fonte de inspiração: Astronomy Picture of the Day, 27/12/07

domingo, 25 de maio de 2008

Ivan Gusttavo, pintor.

"Ivan Gustavo?" "É. Não gostou?" "Não é bem isso," menti, "é que é meio diferente." "É, e eu coloquei os dois tês para diferenciar ainda mais." "Dois tês?" "Em Gusttavo." "Ah, é Gusttavo?" "Isso, com dois tês." "Sei..." Baixei a cabeça e olhei mais um pouco para aquela pessoinha tão tão tão pequena mas já portadora de um fardo dos mais pesados. Li recentemente nas últimas páginas de um livro que o nome da gente é a única coisa que temos certeza de que será eterna. Se desconsiderarmos a (remota) possibilidade dos cartórios um dia serem extintos das regras que regem a nossa dinâmica social e pensarmos um pouco nessa imortalidade do nome próprio chegamos num terreno onde eu poderia, com absoluta tranqüilidade, agredir fisicamente aquele homem ao meu lado. Seria uma espécie de vingança antecipada à vida asquerosa que ele acabara de presentear ao seu filho. "É que meu pai gostava muito de Van Gogh," ele disse aparentemente ao acaso enquanto eu pensava em socá-lo com força no seu pomo-de-adão, fazendo-lhe engasgar com a própria tireóide. "E o que tem a ver?", perguntei. "Ivan Gusttavo, Van Gogh, não entendeu?" "O nome Ivan Gusttavo é pra ser uma referência a Van Gogh?" "Claro, pô. São bem parecidos." "Os nomes não têm absolutamente nada a ver." "Como não? As iniciais são as mesmas e se você falar rápido parece até o mesmo nome." "Claro que não parece! E porque diabos você não chamou ele de Van Gogh? Ou até mesmo de Vincente." "Vincente? Nada a ver do caralho." Consegui ficar ainda mais puto. Ele balançou a cabeça de leve e olhando para o lado disse, "Fiquei com medo da professora não saber pronunciar o nome direito e chamar ele de Van Goge, tipo como se fosse um jota. As crianças sofrem a vida toda com esse tipo de coisa." E ele pensa que Ivan Gusttavo o faria sofrer menos? Imbecil. "Olha," eu disse, "só acho que você devia ter feito alguma pesquisa antes. Também acho que nome é uma coisa importante. Ivan Gusttavo não passa de uma má adaptação de dois nomes típicos do norte da Ásia." "Eu sabia que você tinha odiado. Porque não falou logo?" "Não é que eu não gostei, cara. É que é muito feio!" "Dá no mesmo, caralho," ele disse antes de bater a porta. Do lado de dentro, ainda gritei, "Você matou o menino!" O barulho fez com que a pequenina caricatura soviética de Van Gogh acordasse. Tentei sorrir, mas não deu. Apoiei os cotovelos no berço e encarei seus olhos que, em retorno, pareciam suplicarem-me por ajuda. Então, como se fosse um membro daquelas famílias que se envergonham por ficar na dúvida entre desligar ou deixar ligado os aparelhos que garantem a sub-vida de um parente que convalesce na cama de algum hospital particular, pensei brevemente em furar os olhinhos de Ivan Gusttavo usando meus dois polegares. Fundo o suficiente para fazê-lo parar de respirar. Seria uma forma de salvá-lo da vida medíocre em que teria dali em diante. Levei minhas mão até o seu rosto, alisei suas sobrancelhas, sorri amarelo e disse, "Oi, Ivan, sou eu, tio Edésio." Vinte anos depois Ivan nos chamou para sua primeira exposição. Não foi ruim.


Fonte de inspiração: Astronomy Picture of the Day, 23/05/08

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Universo-bolha.

Quando eu voltei para a sala as luzes já haviam sido apagadas e os trailers iniciados. Subi às cegas os degraus que a companhia detentora da maioria das ações daquela empresa que um dia vendera empadas e hoje projeta filmes haviam me colocado como obstáculo e, chegando na fileira onde, há pouco, legitimamente conseguira um assento, surpreendi-me ao vê-lo ocupado por nádegas que não eram minhas. "Com licença, mas esse lugar é meu", disse às nádegas. "Como assim? Você chegou agora." "Não, não, veja bem, eu saí pra comprar aperitivos, mas eu já havia me sentado nesse assento antes." "E cadê os tais aperitivos?", perguntou com um tom de desafio e de zombaria (talvez pela minha escolha de palavras) e, como resposta, puxei um Snickers do bolso. "Não como pipoca." "Tá, mas veja o meu lado, eu cheguei aqui e o local estava vazio." "Eu entendo, não precisa se desculpar." Ele ficou uns instantes em silêncio e disse meio rindo que não estava se desculpando. "Olha, não falta muito para que o filme comece, eu queria muito o meu lugar de volta." "O lugar não é seu, companheiro. Porque não senta ali do lado? O cinema nem está tão cheio. Ali está ótimo pra assistir também." "Em primeiro lugar, não sou seu companheiro, em segundo, porque não senta você em outro lugar? Esse daí é meu." "Prove." No exato momento em que ele falou isso tudo escureceu. Preto absoluto. Por um instante pensei ter cegado e senti um gosto quente subir até a garganta, mas não, na verdade tratava-se daqueles instantes de escuro e silêncio que preenchem o espaço temporal entre os trailers e o filme pelo qual, na maioria dos casos, pagamos o ingresso. "O filme começou." "É, e você está me atrapalhando." "Eu vou chamar o segurança se você não sair do meu lugar." Nesse momento algumas pessoas começaram a reclamar tanto do fato de eu estar em pé quanto do de estar, de certa forma, falando alto durante o filme. "Pode chamar, babaca." Quem falou isso não foram as nádegas larápias, mas um bem apessoado par de seios do seu lado. "E você quem é?" "Minha namorada", respondeu antes as nádegas e completou com "agora vê se pára de encher o saco, não vamos sair daqui só porque você disse que tinha achado esse lugar antes." De súbito, tudo ficou claro. "Olha," disse, "eu sei que não é tarefa fácil submetermo-nos a uma ordem como a que estou a lhe impor estando acompanhado de alguém do sexo oposto. Como possível homem que és, efetuar tal troca seria um fardo duplo. De um lado, sujeitar-se-ias à posição de inferior sob outro alguém do mesmo sexo diante da sua fêmea, e do outro lado terias ainda que caçar, curvado diante do olhar zombeteiro da audiência presente, por outros dois lugares vagos onde poderiam depositar, em paz, suas nádegas e seios. Sendo assim, por ser uma pessoa de coração justo e ciente da delicada posição em que te encontras, cedo-lhe minha vaga." As nádegas e os seios ficaram alguns instantes apenas olhando para mim com uma expressão que, ao meu ver, designava confusão. Por fim, as nádegas me perguntaram: "Porque você falou agora como se estivesse num livro?" "Porque é difícil me enganar o tempo todo. O que te faz crer que não estamos em um?" Ele não respondeu. Caminhei em direção ao assento vago mais próximo e até chegar lá pude ouvir, dentro de mim, os aplausos de todos os presentes. Eram gritos ovação e louvor. Ah, o auto-conhecimento...


Fonte de inspiração: Astronomy Picture of the Day, 07/11/05

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Nebula negra.


"Sabia que a soma de todo o tempo que passamos dormindo equivale a um terço da nossa vida?", ela me perguntou. Não falei nada na hora, só olhei e sorri, não valia a pena comentar o quanto eu achava imbecil esse tipo de informação, ou pior, o quanto eu sinto desprezo por quem sai repetindo essas bobagens só porque em alguma noite mal dormida ligou no Discovery Channel e viu algum pseudo-documentário que, por completa falta de competência intelectual do autor, trouxe tamanha bobagem como dado. É, fiquei calado, não queria deixar que aquela irritação invasora me tomasse o momento de glória, afinal, estávamos juntos novamente, acabáramos de reatar laços partidos a lágrimas. Por um lado, diante do perdão que fora-me concedido havia pouco, não custar-me-ia tanto calar após a verbalização do factóide idiota; por outro, minha cabeça borbulhava de respostas a dar-lhe - a maioria delas grosseira, admito. Olhei para ela e, talvez por causa do brilho no seu olhar, achei que o silêncio ficou incômodo. Ela devia estar esperando uma resposta, algum simulacro de surpresa ou - pior - algo inteligente. Sorri amarelo. Eu poderia, ali mesmo, presenteá-la com a resposta que seus olhos frajolas pareciam me pedir. Sim, eu poderia dizer "É mesmo, princesa? Onde você viu isso? Nossa, esse documentário parece bem legal, hein? Poxa, um terço é muito, hein? Que desperdício, não?", ou algo com o mesmo efeito. Desse modo eu lhe concederia aquela sensação que temos quando sabemos que acabamos de falar algo esperto. Quem sabe até, diante desse meu ato de ternura e caridade, ela viesse a me oferecer um bônus: não só estaríamos juntos de novo como passaríamos a noite fazendo amor. No entanto, olhando por outro lado, dar-lhe tal resposta faria de mim uma paródia, uma cópia tosca de mim mesmo. Seria como misturar minhas fezes num copo com leite, depositar seu conteúdo dentro da minha boca e nunca engolir. Passar a vida com aquela mistura indigesta descansando entre minha língua e meu palato. Não, eu não poderia me sujeitar a tamanha baixaria. Por isso, olhei pra ela e comecei: "Olha, eu tenho tanta coisa pra te dizer agora que po--" Então tudo ficou preto. Foi assim que tive o meu primeiro derrame.


Fonte de inspiração: Astronomy Picture of the Day, 22/03/08

segunda-feira, 28 de abril de 2008

H no início.

"Qual a sua cor predileta?" "Azul," respondeu firme. "Você sabia que azul é a cor favorita da maioria das pessoas?" "Mesmo?" "Mesmo." "Onde você viu isso?" "Não lembro, mas não importa... acho que faz sentido. Tudo o que não podemos ter é azul." "Tipo a calcinha daquela menina?" "Tipo o céu o mar." Ele não contestou. Dei outra mordida na coxinha de galinha e suguei um pouco de refrigerante de cola light pelo canudo branco com listras vermelhas verticais. Cerca de dez minutos depois eu estava sozinho sentado num banco da praça que fica em frente ao escritório só esperando o tempo passar, se é que podemos colocar as coisas nesses termos, já que deixar de passar nunca foi uma característica do tempo. Uma mulher de meia idade muito bem apessoada se aproximou como se fosse perguntar alguma coisa, mas apenas sentou-se ao meu lado e puxou um celular de uma bolseta arroseada. Em seguida, digitou uns números. "Oi? Sou eu. É, estou sabendo, e agora?" Enquanto ela falava, eu não conseguia tirar os olhos dos seus peitos. Eram extremamente bem formados e convidativos. Fiquei pensando, eu poderia muito bem arrancar-lhe o telefone, dizer cala a boca e encher aqueles peitos de beijos molhados enquanto friccionava meu púbis em suas ancas, mas optei por não externizar a idéia. Mas antes mesmo que eu conseguisse espanar a sujeira dos meus pensamentos, a mulher desligou o telefone e, sem olhar para mim, mas certamente para mim, perguntou: "É inacreditável, né?" "O quê, exatamente?", perguntei um pouco temeroso. "Você não ficou sabendo do novo pecado capital?" "O de ser rico?" "Isso." "Vi na internet hoje cedo." "A Igreja é muito ipócrita. Logo quem, o Vaticano... que moral eles têm para dizer que é pecado juntar dinheiro?" "Na verdade o pecado é juntar muito dinheiro. Pelo menos foi o que eu li." "Você é cristão, né?" Fiquei meio puto, mas respondi. "Ainda bem," ela disse, "eu acho todo cristão ipócrita." "Olha, desculpa, mas hipócrita tem h." "Como é?" "Hipócrita se escreve com h no início." Ela pareceu não entender e, virando o rosto para a esquerda, riu de leve. Aproveitei para olhar um pouco mais para o seu par de peitos. "Olha, tenho que ir." "Fique mais um pouco," pedi, embora a sua presença de certa forma me irritasse. "Estão me esperando no escritório." "Qual o seu nome?" "Michele, e o seu?" "Sávio." "Sávio," ela disse enquanto abria a bolsa, "pegue esse dinheiro e, por Deus, gaste!" Fiquei meio confuso, mas aceitei as duas notas de vinte reais. Antes que ela virasse dei-lhe um abraço e dois beijos no rosto. Ela corou, virou e se foi. Andei até o trailer da esquina e pedi "mais uma coxinha, por for favor."

Fonte de inspiração: Astronomy Picture of the Day, 28/04/08

domingo, 27 de abril de 2008

Estruturas incomuns no centro da nossa galáxia.

Só faltava mesmo a recorrente febre para fazer do nosso personagem uma paródia grotesca dos anti-heróis do realismo russo. Sim, o peso da pergunta resultou numa livresca pausa dostoievskiana. E, se bem recorda-se, ela perguntou "e você?", e mesmo que por si só pequenina sentença não detenha toda a carga dramática prometida por quem agora vos escreve, ao tomarmos conhecimento do conteúdo da conversa posterior à sintética interrogação, tudo se clareia. Sem rodeios, pois disso vivem apenas aqueles que não sabem onde querem chegar: ela, antes de fazer tal pergunta, falava dos seus sentimentos pelo quase febril Pedro Servil. Se tivesse sido fácil declarar a reciprocidade desejada por ela, Pedro assim o faria. Na verdade, mesmo se fosse difícil, Pedro não demoraria para presenteá-la com o esperado "eu também". No entanto, não era fácil, tampouco difícil. Era - na verdade - impossível. Não havia, em Pedro, qualquer tipo de fragmento de sentimento mesmo que somente superficialmente similar àquilo que brotava a jorros do peito daquela que o amava. Sendo assim, depois da supracitada pausa, Pedro disse apenas: "que horas são mesmo?", "Onze e doze.", "Já? Preciso ir... fiquei de encontrar o pessoal pra almoçar no Antônio's.", "Tá...", "Beijo.", "Beijo." E assim Pedro beijou-lhe apaixonadamente os lábios enquanto, com a mão esquerda, apertava-lhe a cintura.

Fonte de inspiração: Astronomy Picture of the Day, 27/04/08

sábado, 29 de setembro de 2007

Silêncio: Durkheim e as cebolas.

Retirado dos Arquivos do Silêncio, 2004:

Certo dia eu sonhei que lia Èmile Durkheim. Acordei me sentindo gordo. No espelho me vi como uma cebola gigante! Por alguma razão irracional, não me importava em ser uma cebola-humana dali em diante. Estava esperançoso.

Algumas pessoas aceitaram com facilidade o fato de eu ter me transformado numa cebola; mas a grande maioria me tratava com desprezo e indiferença. No inicio eu não ligava. Meus amigos eram suficientemente amáveis para que eu mantivesse minha auto-estima num nível tolerável.

Fui feliz durante uma grande parte da vida pensando como uma cebola e fazendo algumas pessoas ao meu redor pensar igualmente. Cheguei a encontrar pessoas que haviam se transformado em tomates, alfaces, cenouras e, alguns poucos, em cebolas também.

O tempo foi passando e o desprezo que os humanos expressavam por mim passou a incomodar. Ninguém parecia estar com fome. Ou seriam todos carnívoros? A salada apodreceu. Eu, desesperado, com uma faca na mão, me cortei. Fatias de cebola voaram para todos os lados...

Pela primeira vez vi pessoas chorarem por mim. Por mim?

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

O conto do vigário.


O que foi?, perguntou Andrade antes mesmo que o pequenino Ícaro pudesse sentar-se à mesa. Eu sei que aconteceu alguma coisa, está estampado na sua cara. Sem responder, Ícaro levantou a mão esquerda, e nela havia um envelope com o símbolo do colégio. Diabos, Ícaro, o que você foi aprontar dessa vez? Helena, tomada pela forma dura como Andrade expeliu aquela última frase, aproximou-se do filho. O que foi, amor?, perguntou num tom doce. Ícaro recebeu alguma advertência do colégio. Calma, amor, a gente nem sabe o que é ainda. Helena, então, pega o envelope da mão de Ícaro, o abre num movimento rápido e põe-se a ler um o conteúdo de uma folha A4 que estava ali contida. Menos de vinte segundos foram necessários para que ela se sentasse no sofá e, com uma expressão que denotava um misto de surpresa e estranheza, permaneceu em silêncio. Andrade, impaciente, puxou a carta para si e pôs-se a lê-la. Para não sabotar o momento, dedico um novo parágrafo à próxima fala de Andrade...

CARALHO, ÍCARO! Que merda é essa? Você chamou o padre de punheteiro? O pequeno Ícaro nada respondeu, limitando-se a inclinar a cabeça um pouco para baixo. Como foi que isso aconteceu?, acho melhor você ter uma boa explicação, meu filho, disse Andrade claramente falhando em esconder uma certa oscilação entre a vergonha e o orgulho que agora sentia pelo filho. Ícaro, então, diz simplesmente que Ele estava batendo punheta no vestiário dos meninos depois da aula de educação física. Aquele padre safado é um punheteiro mesmo. Ícaro, retrucou logo o pai, em primeiro lugar: onde é que você anda aprendendo esses termos?, em segundo: porque diabos o vigário estaria se masturbando no vestiário masculino? Isso tá me cheirando mal. Ícaro revelou que seu vocabulário fora amplamente atualizado graças a um fórum sobre quadrinhos o qual ele visitava diariamente através da Internet, e confirmou que o padre estava a se masturbar, o que transformaria o seu suposto xingamento numa simples assertiva.

No outro dia Andrade dirigiu-se ao colégio logo cedo e passou quarenta e três minutos numa sala esperando para ser atendido pelo padre, de forma que aquela situação embaraçosa fosse resolvida de uma vez por todas. Bom dia Sr Andrade!, disse o puto do padre punheteiro. Bom dia o diabos! Como é que o senhor me deixa quase duas horas esperando lá fora pra resolver uma situação onde o senhor é o culpado? O padre pareceu inabalado e disse apenas Sente-se, por favor. Então Andrade resumiu a revelação feita pelo seu filho no dia anterior, o que justificaria o fato de tê-lo chamado de punheteiro. Veja bem, continuava Andrade, Não podemos dizer que ele ofendeu o senhor, se de fato o senhor estava a se masturbar no vestiário. É a mesma coisa que passar um pipoqueiro aqui agora e eu gritar "Ô pipoqueiro!" e ele considerar isso uma ofensa. O padre, então, pôs-se a falar, O senhor está equivocado. Tem certas verdades que, dependendo do contexto, podem ser entendidas como ofensas brutais. Se um negro passar por aqui agora e eu gritar "Ô negro!", a situação não será facilmente resolvida. Em segundo lugar, era o seu filho quem estava se masturbando quando eu cheguei no vestiário. Meu filho tem 8 anos, seu viado!, respondeu Andrade. O padre levantou-se com uma expressão de fúria estampada na cara, caminhou em direção a Andrade e, com a mão esquerda, apertou-lhe com uma certa suavidade os testículos. Em seguida disse, viado é você, seu porra. Suma daqui e vá ensinar seu filho a se comportar como gente.

Andrade chegou em casa e disse que não pôde ir no colégio porque passou o dia atolado de trabalho no escritório.

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

As vozes do Claustro.

Dr Silvério já estava quase apagando as luzes quando alguém bateu na porta. Maldição, pensou em segredo enquanto dirigia sua mão esquerda à maçaneta. Perdão pelo atraso, disse logo Claustro. A culpa não foi minha, Edna pediu pra eu deixar os meninos no caratê e o trânsito estava um inferno. Tudo bem, mentiu Silvério, Sente-se, completou apontando para o sofá. Claustro era seu último paciente antes do feriado e ainda que ele não tivesse se atrasado tanto, a característica paciência do doutor já não estava muito presente naquele dia. O atraso de Claustro só piorou a situação. Claustro, disse seco o Dr Silvério, Como andam as vozes? Ainda têm te perturbado? Claustro sentou-se devagar, ficou alguns instantes em silêncio e disse Muito olhando fixamente para o médico. Não melhoraram nem um pouco?, nem mesmo com a medicação?, perguntou Silvério fingindo interesse. Não, respondeu Claustro, Na verdade, doutor, eu senti até uma piora. Uma piora? Isso. Hum, murmurou Silvério. Claustro, você se lembra que semana passada eu pedi para você andar com um gravador portátil e sempre que você ouvisse as tais vozes, você registrasse no gravador? Lembro, doutor. E então, você registrou o que as vozes diziam? Eu fiz melhor, doutor... eu consegui gravar as vozes da minha cabeça diretamente no gravador. Como é?, perguntou assustado o médico. É isso mesmo, eu consegui gravar diretamente na fita tudo o que estava ouvindo na minha cabeça. Então, incrédulo, Dr Silvério pediu para que Claustro colocasse o gravador sobre a mesa e apertasse o botão play. Foi o que Claustro fez, e ele o doutor ouviram exatamente o seguinte:



E aí, doutor, perguntou Claustro, É normal ouvir essas vozes? Dr Silvério encostou-se na sua cadeira, ponderou um pouco e disse Sim, é perfeitamente normal. Agora, nunca mais apareça por aqui.

domingo, 26 de agosto de 2007

A taxonomia definitiva.

O texto abaixo é um fragmento de uma idéia originalmente concebida por mim e Ramon (Ayres). Hoje essa texto é peça fundamental no meu profile do Orkut.

Hoje eu acordei com uma idéia inacreditável na cabeça.

Qual?

Foi completamente do nada. Simplesmente surgiu! E com medo de perder a idéia me levantei rapidão, catei um papel, mas não achei nem caneta nem lápis.

Não tinha no estojo?

Aí é que está: não achei o estojo. Entrei logo em desespero porque a idéia que eu tive era daquelas que, se bem aplicada, pode mudar a vida de uma pessoa para sempre.
Será que não ficou na universidade?

O quê?

O estojo.

Foi o que eu tinha pensado. Entrei na internet pra procurar o número do telefone da universidade e quando liguei pra lá ninguém sabia dizer exatamente se existia ou não algum setor de achados e perdidos.

E porque você não anotou sua idéia no bloco de notas do computador.

Putz, é verdade. Nem pensei nisso. Acabei focando no estojo. Só sei que quando cheguei lá me dei conta que a carteira da biblioteca tinha ficado em casa, e o único lugar onde eu poderia ter esquecido o estojo era na sala de estudo da biblioteca. Sempre chego, sento, arrumo os livros e coloco o estojo do lado.

Odeio esse sistema de só poder entrar com a carteira.

E eu não? Briguei feio com o segurança.

Mas você ainda se lembra da idéia?

Lembro, mas com menos detalhes.

Diz aí.

Você sabe o que é uma taxonomia?

Não.

É tipo um apanhado de informações classificadas com um determinado critério com o objetivo de organizar alguma coisa. Tipo a classificação dos organismos vivos em reinos, famílias, aquele lance todo, entende?

Isso é uma taxonomia?

Bem resumidamente, sim.

He, he, he.

O que foi?

Nada.

Diz, pô. O que foi?

Besteira, rapaz.

Putz, diz aí, caralho!

É que pelo nome eu pensava que tinha alguma coisa a ver com gado.

Gado? Tipo boi?

É. Eu falei que era besteira. Fala logo sua idéia.

Tá, mas como diabos taxonomia teria a ver com boi? Se você falasse que tinha algo a ver com taxas do governo ou algo parecido, tudo bem... mas boi?

Pô, se tivesse algo a ver com taxas do governo seria muito óbvio. Minha mente não é assim tão barata.

Ah, então associar taxonomia à população bovina é sinal de refinamento intelectual agora?

Só estou dizendo que não costumo pensar sempre o óbvio. Associar taxonomia a algo relacionado a taxas só porque aparentemente o radical das palavras é o mesmo é coisa pra estudante do nível médio.

Mas o radical não é o mesmo.

Não importa. Diz logo a idéia.

Tá, eu tinha pensado que seria muito interessante para o mundo gerar uma taxonomia de tipos físicos.

Essa é a sua grande idéia, pensador?

Não dispense a idéia tão rapidamente. Ela não seria uma taxonomia qualquer, pois isso até já existe. Calma, calma, não saia. Escute primeiro. Essa taxonomia seria capaz de uma precisão impossível de encontrar no que vemos hoje.

Cara, essa idéia de classificar tipos físicos me cheira um tanto nazista.

Não seja barato, meu caro. Assim você me ofende. Escute o que tenho a dizer. O mundo precisa de uma taxonomia nesse sentido, mas uma que seja absolutamente precisa. Uma que não deixe espaço para dúvidas. Aquele bandido que levou meu estojo, por exemplo, poderia ter sido observado por uma testemunha cujo depoimento para a polícia (se calcado na minha taxonomia) descreveria o meliante com tanta propriedade que nem mesmo uma fotografia do mesmo seria tão clara. Seria uma resposta do tipo “o assaltante era um Arauto 16 Leopoldino 211 Matusalém 2 Quadrado Jupteriano 823.”

...

O que achou? Onde você está indo? Espere. Pare aí. Ei, alguém segure esse Guagalupe 21 Rubro 89 Venerado Ulampiano 302!

sábado, 18 de agosto de 2007

O cão falante.

Apesar de todos os indícios, ele se negava a perceber que já não lhe restava mais chance de vitória. Insistiu por orgulho e perdeu todo o dinheiro que tinha levado consigo. A fúria pela derrota lhe deixou adormecido, de forma que nem as chacotas mais contundentes lhe atingiam. Saiu, então, do recinto e pôs-se a caminhar naquela madrugada morna. Cruzou dois quarteirões até chegar no ponto do ônibus que o deixaria em casa. O cansaço do dia logo lhe pediu que sentasse, e assim o fez. Não havia carros em movimento nem de um lado nem de outro da avenida. Alguns minutos se arrastaram e nada do ônibus que era-lhe alvo aparecer. Talvez nem passasse naquele horário. E assim que pensou nessa possibilidade ele viu um grupo de pessoas surgirem a uma distância segura. Tomara que não atravessem a avenida, pensou. Caso tal travessia de fato ocorra, colocar-me-ei em disparada na direção oposta. O grupo, que agora poderiam ser discernido em quatro indivíduos possivelmente do sexo masculino, atravessou a avenida, mas de última hora nosso cansado protagonista achou mais prudente não correr; tal ato poderia despertar uma reação adversa (e até perigosa) naqueles possíveis adolescentes trabalhadores. Os quatro indivíduos se aproximavam numa velocidade relativamente incômoda, revelando-se, por fim, quatro homens crescidos, e não adolescentes. Munido de coragem, o protagonista levantou-se e bradou: Estou armado seus vagabundos infames! Posso atirar bem no meio da cara de vocês se assim desejar! O som da sua voz esganiçada parece ter soado como um trovão aos ouvidos daqueles quatro homens, que (como se fossem arrebatados por uma descarga elétrica) colocaram-se a correr desesperadamente na direção oposta àquela de onde vinham. Sem entender exatamente porque o fazia, o protagonista começou a correr atrás das quatro vítimas. Passaram-se um, dois, três quarteirões. Vai tomar tiro na cara, vagabundo!, gritava. Os quatro já estavam ofegantes de tanto correr, e quando o protagonista se sentiu seguro novamente, parou de persegui-los, olhou para o lado e viu que um cão lhe observava com interesse. O que é que você está olhando?, indagou irritado. O cão nada disse a princípio, mas quando o protagonista pôs-se a caminhar em direção ao ônibus, pôde ouvir com clareza uma voz que (a julgar pela direção de onde vinha) parecia pertencer ao cão, que agora dançava; e a voz dizia exatamente assim:

sexta-feira, 29 de junho de 2007

O Homem Chaminé (parte 01).

Essa é a história de um homem que fumava muito. Uso, nesse caso, a palavra muito por limitação da nossa língua materna. Muito, aqui, é muito pouco perto do que ele de fato fumava. Para que vocês tenham uma idéia, por determinação da ONU esse homem o qual me refiro foi obrigado a assinar o tratado de Kyoto tamanho era o volume de fumaça que ele expelia pela boca. Em 2002 ele até chegou a sofrer uma tentativa de assassinato quando dois membros do Greenpeace um pouco mais exaltados dispararam contra nosso protagonista com arpões próprios para caçar tubarões-tigres. Um dos arpões errou o alvo, o outro perfurou o pulmão esquerdo do fumante compulsivo. Os médicos, porém, não precisaram retirar o arpão durante a cirurgia que garantiu-lhe a sobrevivência. Por algum motivo ainda obscuro para os profissionais da medicina, o metal do arpão que se encontrava cravado no peito do sobrevivente dissolveu-se como manteiga, permitindo que os médicos simplesmente suturassem o rombo causado pelos ativistas.

Ainda em 2002 a pequena cidade onde o tal fumante habitava decretou estado de calamidade publica, de forma que ele teve que ser removido para o subúrbio de alguma grande metrópole, onde o mal que emitia pela boca não se destacasse, camuflando-se em meio ao cenário caótico que agora fazia parte da sua vida.

A mudança de cidade não foi fácil, então o fumante passou a procurar hobbies que lhe ocupassem a mente. No entanto, quando nosso herói estava adquirindo gosto pelo futebol foi logo proibido de freqüentar os estádios, visto que o transtorno que causava era ainda pior que aquele dos sinalizadores usados pelas torcidas organizadas. Com o passar dos anos o desempregado fumante foi perdendo o gosto pela vida. Entrar em restaurantes já não era-lhe mais possível fazia uma década. Fazer amizades tornou-se impossível desde que quatro dos seus vizinhos morreram após um ano de convivência como o personagem principal dessa história. Diagnóstico: câncer de pulmão. Já com as mulheres o fumante tinha sorte. Ninguém conseguia entender o porquê, mas as mulheres enxergavam nele algo que ninguém mais via. O problema, porém, é que nosso personagem era homossexual. Passivo.

O único homem que ousou possuí-lo veio a falecer antes mesmo do seu fálico órgão colocar-se para fora da bermuda. O fumante lembra-se até hoje de ter passado menos de quinze minutos na delegacia explicando o que aconteceu. Os policiais perderam a paciência quando o corpo de bombeiros chegou perguntando qual era o foco do incêndio.

Acho que deu pra vocês terem uma idéia do quanto ele fumava.

(Continua...)