Apesar de todos os indícios, ele se negava a perceber que já não lhe restava mais chance de vitória. Insistiu por orgulho e perdeu todo o dinheiro que tinha levado consigo. A fúria pela derrota lhe deixou adormecido, de forma que nem as chacotas mais contundentes lhe atingiam. Saiu, então, do recinto e pôs-se a caminhar naquela madrugada morna. Cruzou dois quarteirões até chegar no ponto do ônibus que o deixaria em casa. O cansaço do dia logo lhe pediu que sentasse, e assim o fez. Não havia carros em movimento nem de um lado nem de outro da avenida. Alguns minutos se arrastaram e nada do ônibus que era-lhe alvo aparecer. Talvez nem passasse naquele horário. E assim que pensou nessa possibilidade ele viu um grupo de pessoas surgirem a uma distância segura. Tomara que não atravessem a avenida, pensou. Caso tal travessia de fato ocorra, colocar-me-ei em disparada na direção oposta. O grupo, que agora poderiam ser discernido em quatro indivíduos possivelmente do sexo masculino, atravessou a avenida, mas de última hora nosso cansado protagonista achou mais prudente não correr; tal ato poderia despertar uma reação adversa (e até perigosa) naqueles possíveis adolescentes trabalhadores. Os quatro indivíduos se aproximavam numa velocidade relativamente incômoda, revelando-se, por fim, quatro homens crescidos, e não adolescentes. Munido de coragem, o protagonista levantou-se e bradou: Estou armado seus vagabundos infames! Posso atirar bem no meio da cara de vocês se assim desejar! O som da sua voz esganiçada parece ter soado como um trovão aos ouvidos daqueles quatro homens, que (como se fossem arrebatados por uma descarga elétrica) colocaram-se a correr desesperadamente na direção oposta àquela de onde vinham. Sem entender exatamente porque o fazia, o protagonista começou a correr atrás das quatro vítimas. Passaram-se um, dois, três quarteirões. Vai tomar tiro na cara, vagabundo!, gritava. Os quatro já estavam ofegantes de tanto correr, e quando o protagonista se sentiu seguro novamente, parou de persegui-los, olhou para o lado e viu que um cão lhe observava com interesse. O que é que você está olhando?, indagou irritado. O cão nada disse a princípio, mas quando o protagonista pôs-se a caminhar em direção ao ônibus, pôde ouvir com clareza uma voz que (a julgar pela direção de onde vinha) parecia pertencer ao cão, que agora dançava; e a voz dizia exatamente assim:
sábado, 18 de agosto de 2007
O cão falante.
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1 comentários:
Brilhante! vc me deixou com um clima meio 'Lost'...quém será o cão ? hahaha
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