Num determinado dia, em meados da década de 1980, eu estava fazendo cocô na casa da minha tia mais velha. Lembro que quatro coisas em particular me chamavam a atenção naquele banheiro. A primeira era o tamanho. Provavelmente era o maior banheiro que já havia visto até aquele momento da minha vida. A segunda era um par de halteres verdes que ficavam em um dos cantos do banheiro. Eu sei que eram verdes, mas quase não havia mais verde ali. A tinta estava quase toda descascada, dando vista ao metal enferrujado. Não lembro exatamente quanto pesava cada um dos halteres, mas lembro que na época eu mal conseguia erguê-los do chão. A terceira coisa era um escovão de banho. Eu tinha um pouco de nojo daquilo; ficava imaginando minha tia usando-o das formas mais impróprias. A quarta coisa que me chamava a atenção (e a raison d'être desse texto) era um adesivo circular colado na porta cinza que dizia "Crer é poder." Lembro que na época eu nunca entendi direito o que aquela frase tão direta e simplória queria dizer, e talvez seja precisamente por conta da minha ignorância que aquele adesivo me causara um verdadeiro fascínio (tanto que estou aqui escrevendo isso cerca de duas décadas depois de limpar a bunda lendo que ter fé confere poder).
Nota de meio de texto: Longe de mim acreditar que eu tenho condições de fazer uso nesse texto de palavras como "poder", "fé", "desejo", entre outras, considerando a vasta gama de significações que estas carregam hoje; significações estas que tão exemplares pensadores dedicaram suas vidas a desenvolvendo. Assim, reservo-me o direito de reduzi-las a seu uso corriqueiro, afinal, estamos na internet, num blog pessoal que ninguém nem lê. Estamos na minha arrogante e minúscula meta-narrativa.
Quando entramos no campo da religião do povo (não dos teólogos apreciadores do bom vinho e do cheiro de mofo), "crer", "acreditar", "ter fé" são conceitos que se misturam. Se pudermos crê-los sinônimos, afirmo sem medo: Crer, ou ter fé não tem absolutamente nada com poder, com conseguir. Nada mesmo. Eu queria poder até dizer que crer é o avesso de poder, mas algo em mim diz que esse seria um passo longo demais a ser dado, então me limito à máxima: Crer é poder não poder. Em outras palavras, ter fé é se dar o luxo de não conseguir; é viver com isso; é inverter o princípio que inicialmente motiva a própria crença. Elaboremos juntos essa idéia:
Se é difícil (ou, quem sabe, impossível) invalidar a fé enquanto conceito, podemos, pelo menos, colocá-la numa posição de embaraço. Vejamos: acreditar que crer é poder, que a fé de alguma forma leva a um resultado positivo e factual em relação às necessidades, desejos, anseios do fiel só pode levar a dois resultados: a) A uma espécie de implosão do universo, que viraria ao avesso, se auto-devoraria e, em seguida, defecaria uma quantidade considerável de anti-matéria; b) À idéia de que ter fé é, em princípio, egoísta.
Na alternativa a temos uma espécie de fim do mundo, juízo final, apocalipse, armageddon (ou a qualquer outro termo bíblico análogo e hollywoodianamente engraçado). Esse fim do mundo aconteceria quando levamos em conta a seguinte lógica: Digamos que uma pessoa tenha fé e, por ter fé, consegue tudo o que quer. Uma outra pessoa (seu vizinho, talvez) tem fé na mesma intensidade que a primeira pessoa e por um acaso do destino, deseja exatamente a mesma coisa que seu rival de fé. O que acontece? Provavelmente os dois se desmaterializariam sugados por um mini-buraco-negro que, de súbito, surgira em suas axilas esquerdas. Agora, pensemos agora numa escala global: todas as pessoas tendo fé igualmente. Aquilo que seria o sonho molhado de qualquer beata, transformar-se-ia no seu maior pesadelo. Vivemos num planeta que não possui matéria prima e humana (no caso dos desejos impróprios) suficientes para que todos os seis bilhões de habitantes possam ter fé e, em conseqüência dessa fé, realizar seus sonhos. Se todos realmente acreditassem (e se crer realmente fosse poder), o mundo se esgotaria e comeria a si mesmo. Bum. Blargh. Flush.
Mas calma! Caaaalma! Não precisa correr para as colinas... Ainda podemos ter esperança. Se crer realmente for poder, ainda podemos evitar o fim do mundo. Para tal, é necessário apenas que optemos pela alternativa b já citada. Em outras palavras, temos que torcer para que a maioria das pessoas do mundo não tenham fé; torcer para que apenas nós possamos realmente crer e poder! e, conseguinte, poderemos realizar nossos sonhos. Sendo assim, da próxima vez que for à missa, lembre de colocar aquela gota de cicuta no vinho do padre. Um padre a menos, menos fé no mundo, mais chance de você realizar seus desejos, mais matéria prima e humana para saciar as necessidades da carne.
O grande problema é que se essa alternativa b procedesse, o dinheiro sempre estaria nas mãos dos fiéis, nunca nas mãos da igreja. Por isso, sou obrigado a retornar ao terceiro parágrafo, onde observei que crer é poder não poder.
Só me resta ter fé que ter fé, na verdade, lhe permite não realizar seus desejos de uma forma mais (in)digna. Só me resta acreditar que crer não lhe confere nenhum tipo de poder, mas lhe permite olhar pra frente e viver pensando que você acredita em alguma coisa, quando na verdade você já não acredita mais nem em si mesmo. Lhe permite colar um adesivo circular na porta do banheiro e todo dia, antes do banho matinal, olhar para ele esperando extrair alguma força dali.
Se eu soubesse disso na época em que fazia cocô tentando levantar halteres pesados demais para mim, teria limpado a bunda com o adesivo da minha tia até não conseguir ler mais que crer é poder.
terça-feira, 18 de novembro de 2008
Ter fé é egoísmo (ou o fim do mundo).
Escrito por
Bruno O. Barros
às
6:06 PM
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quarta-feira, 12 de novembro de 2008
Clipe de "Mapa Astral" de Daniel, O Invisível.
Escrito por
Bruno O. Barros
às
10:31 PM
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