terça-feira, 18 de novembro de 2008

Ter fé é egoísmo (ou o fim do mundo).

Num determinado dia, em meados da década de 1980, eu estava fazendo cocô na casa da minha tia mais velha. Lembro que quatro coisas em particular me chamavam a atenção naquele banheiro. A primeira era o tamanho. Provavelmente era o maior banheiro que já havia visto até aquele momento da minha vida. A segunda era um par de halteres verdes que ficavam em um dos cantos do banheiro. Eu sei que eram verdes, mas quase não havia mais verde ali. A tinta estava quase toda descascada, dando vista ao metal enferrujado. Não lembro exatamente quanto pesava cada um dos halteres, mas lembro que na época eu mal conseguia erguê-los do chão. A terceira coisa era um escovão de banho. Eu tinha um pouco de nojo daquilo; ficava imaginando minha tia usando-o das formas mais impróprias. A quarta coisa que me chamava a atenção (e a raison d'être desse texto) era um adesivo circular colado na porta cinza que dizia "Crer é poder." Lembro que na época eu nunca entendi direito o que aquela frase tão direta e simplória queria dizer, e talvez seja precisamente por conta da minha ignorância que aquele adesivo me causara um verdadeiro fascínio (tanto que estou aqui escrevendo isso cerca de duas décadas depois de limpar a bunda lendo que ter fé confere poder).

Nota de meio de texto: Longe de mim acreditar que eu tenho condições de fazer uso nesse texto de palavras como "poder", "fé", "desejo", entre outras, considerando a vasta gama de significações que estas carregam hoje; significações estas que tão exemplares pensadores dedicaram suas vidas a desenvolvendo. Assim, reservo-me o direito de reduzi-las a seu uso corriqueiro, afinal, estamos na internet, num blog pessoal que ninguém nem lê. Estamos na minha arrogante e minúscula meta-narrativa.

Quando entramos no campo da religião do povo (não dos teólogos apreciadores do bom vinho e do cheiro de mofo), "crer", "acreditar", "ter fé" são conceitos que se misturam. Se pudermos crê-los sinônimos, afirmo sem medo: Crer, ou ter fé não tem absolutamente nada com poder, com conseguir. Nada mesmo. Eu queria poder até dizer que crer é o avesso de poder, mas algo em mim diz que esse seria um passo longo demais a ser dado, então me limito à máxima: Crer é poder não poder. Em outras palavras, ter fé é se dar o luxo de não conseguir; é viver com isso; é inverter o princípio que inicialmente motiva a própria crença. Elaboremos juntos essa idéia:

Se é difícil (ou, quem sabe, impossível) invalidar a fé enquanto conceito, podemos, pelo menos, colocá-la numa posição de embaraço. Vejamos: acreditar que crer é poder, que a fé de alguma forma leva a um resultado positivo e factual em relação às necessidades, desejos, anseios do fiel só pode levar a dois resultados: a) A uma espécie de implosão do universo, que viraria ao avesso, se auto-devoraria e, em seguida, defecaria uma quantidade considerável de anti-matéria; b) À idéia de que ter fé é, em princípio, egoísta.

Na alternativa a temos uma espécie de fim do mundo, juízo final, apocalipse, armageddon (ou a qualquer outro termo bíblico análogo e hollywoodianamente engraçado). Esse fim do mundo aconteceria quando levamos em conta a seguinte lógica: Digamos que uma pessoa tenha fé e, por ter fé, consegue tudo o que quer. Uma outra pessoa (seu vizinho, talvez) tem fé na mesma intensidade que a primeira pessoa e por um acaso do destino, deseja exatamente a mesma coisa que seu rival de fé. O que acontece? Provavelmente os dois se desmaterializariam sugados por um mini-buraco-negro que, de súbito, surgira em suas axilas esquerdas. Agora, pensemos agora numa escala global: todas as pessoas tendo fé igualmente. Aquilo que seria o sonho molhado de qualquer beata, transformar-se-ia no seu maior pesadelo. Vivemos num planeta que não possui matéria prima e humana (no caso dos desejos impróprios) suficientes para que todos os seis bilhões de habitantes possam ter fé e, em conseqüência dessa fé, realizar seus sonhos. Se todos realmente acreditassem (e se crer realmente fosse poder), o mundo se esgotaria e comeria a si mesmo. Bum. Blargh. Flush.

Mas calma! Caaaalma! Não precisa correr para as colinas... Ainda podemos ter esperança. Se crer realmente for poder, ainda podemos evitar o fim do mundo. Para tal, é necessário apenas que optemos pela alternativa b já citada. Em outras palavras, temos que torcer para que a maioria das pessoas do mundo não tenham fé; torcer para que apenas nós possamos realmente crer e poder! e, conseguinte, poderemos realizar nossos sonhos. Sendo assim, da próxima vez que for à missa, lembre de colocar aquela gota de cicuta no vinho do padre. Um padre a menos, menos fé no mundo, mais chance de você realizar seus desejos, mais matéria prima e humana para saciar as necessidades da carne.

O grande problema é que se essa alternativa b procedesse, o dinheiro sempre estaria nas mãos dos fiéis, nunca nas mãos da igreja. Por isso, sou obrigado a retornar ao terceiro parágrafo, onde observei que crer é poder não poder.

Só me resta ter fé que ter fé, na verdade, lhe permite não realizar seus desejos de uma forma mais (in)digna. Só me resta acreditar que crer não lhe confere nenhum tipo de poder, mas lhe permite olhar pra frente e viver pensando que você acredita em alguma coisa, quando na verdade você já não acredita mais nem em si mesmo. Lhe permite colar um adesivo circular na porta do banheiro e todo dia, antes do banho matinal, olhar para ele esperando extrair alguma força dali.

Se eu soubesse disso na época em que fazia cocô tentando levantar halteres pesados demais para mim, teria limpado a bunda com o adesivo da minha tia até não conseguir ler mais que crer é poder.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Clipe de "Mapa Astral" de Daniel, O Invisível.

domingo, 24 de agosto de 2008

Na casca do ovo agora é .com.br.

Como dizem os noruegueses, há, sempre, caça pra caçar se caçadores formos. Sendo assim, ponho-me a acreditar no potencial das tirinhas Na casca do ovo, que já não publico mais nesse blog nem no blog que eu havia criado para publicá-las porque dei um passo adiante e comprei-lhes hospedagem e domínio .com.br, artigos de luxo numa internet cada vez mais particionada em grandes blocos, orkuts, facebooks, myspaces, blogspots, youtubes, etc. Espero que dê certo. Eu farei minha parte, se não der certo eu te odeio. Sério.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

O duplo.

"Só um double mesmo," respondi. Referia-me, claro, ao adjetivo duplicador da quantidade de carne no sanduíche. "O double está em falta, senhor," replicou aquele que em pouco tempo tornar-se-á o antagonista dessa história. "Não tem mais?", perguntei mais para mim mesmo que para a pessoa de boné. "Como eu disse, senhor, está em falta." "Em falta como?" "Senhor, hoje não temos mais como servir o double." O atento leitor certamente deve (se é que é possível atribuir-se certeza e em seguida fazer-se uso do verbo dever enquanto referente à dúvida) ter notado o malicioso uso da palavra senhor por parte do caixa da lanchonete. Caso algo de maior importância tenha-me roubado vossa digníssima atenção (se é que um dia esta me pertenceu), coloco-me na posição de fornecedor de uma explicação curta, mas segura. Sendo assim, caso o leitor já saiba o mínimo denominador comum das minhas suspeitas, sugiro que pule as próximos 1.450 caracteres, já que não posso tratar aqui em termos de parágrafos ou mesmo linhas (visto a minha dependência vergonhosa da distribuição espacial aparentemente arbitrária do processador de texto que governa esse blog). No entanto, antes de tratarmos do uso maquiavélico da palavra senhor, quero deixar claro que o número de caracteres citado logo acima é preciso, acurado e inclui, inclusive, o espaço após o último dígito. Dito isso, voltemos à malícia do caixa: Na primeira frase proferida pelo funcionário da lanchonete nesse texto, este posicionou a palavra senhor no terminal da frase; e nas frases subseqüentes essa mesma palavra foi empurrada (sem qualquer tipo de consideração) para uma posição mesial e primeira. Trata-se de uma transposição que revela um crescente nível de impaciência e, ao mesmo tempo, busca (num nível inconsciente) submeter aquele a que se dirige as assertivas a uma condição sub-humana, a um papel de servo, de mero criado no qual um cuspe na cara seria muito pouco se nivelado às coisas que tal abominação mereceria. Assim, por crer na alta educação do leitor, estou certo de que a cólera que de súbito erupcionou da minha garganta lhe soará totalmente justificada. Na frase a seguir estarei, portanto, dando continuidade à narrativa interrompida com o intuito de denunciar o caráter demoníaco do caixa que me negou o double; sendo assim, a contagem de caracteres (sem levar em conta o ponto final a seguir) terminar agora. "Vai tomar no cu, seu filho da puta do caralho!", gritei esbofeteando-lhe a face. Por algum motivo, aquilo gerou uma certa comoção entre alguns clientes da loja. É em momentos assim que me lembro do quão falso-moralista é o mundo. Pelo menos ninguém tentou me segurar e, por dever cívico, continuei: "Seu corno nojento, trate de preparar o meu double!" "Mas não tem, senhor...", respondeu baixinho a abominação que, de certo, defecara-se de medo (e é isso que aqueles que sabem que estão errado fazem: defecam-se no interior das próprias calças). "Não me chame de senhor, porra! NÃO ME CHAME DE SENHOR!", disse apontando-lhe na face. Acho que os sons gerados nesse tipo de situação chamou a atenção do superior daquele caixa e, de repente, um rapaz e seu crachá de gerência se aproximaram. "Senhor, posso saber o que está acontecendo?" Por ter uma boa educação, eu sabia que não deveria descontar meu ódio em alguém que acabara de se introduzir na discussão (e, possivelmente, com boas intenções). "Esse infeliz demoníaco, essa criatura rastejante, esse pigmeu leproso acabou de me negar um double por estar em falta!" "Calma, senhor, sugiro que se sente para conversarmos." O homem-crachá estava a um passo de colocar-se numa situação que - estou certo - não desejaria estar. "Não vou sentar e não estou nervoso e não me chame de senhor e me dê meu double agora. Não tem como estar em falta um sanduíche cuja única diferença de um outro mais simples é a adição de uma carne extra. Isso não existe! É só colocar uma carne a mais e voilá, temos o meu double." Ah, confesso que nesse momento fui muito mais solícito, paciente e doce do que costumo ser. Praticamente entreguei a chave da sabedoria para o inimigo, o perdão para o profano, a paz para guerra. "Olha, não é tão simples quanto parece, senhor..." Pois é. O crachá teve a ousadia de desferir-me um golpe logo após ter como oferta a paixão divina. Por ser humano, não me contive. "JUDAS! QUEIME AGORA!", gritei projetando meu cotovelo contra seu pomo-de-adão, golpe este que aparentemente o fez perder a consciência (se é que o infeliz crachá algum dia teve alguma). Mas, como todos sabemos, o mundo é injusto e por ser um só não resisti à força física da massa falaciosa que nos rege. Em segundos me imobilizaram e me golpearam. Na delegacia conversei com o delegado, mas este não parecia muito interessado na temática da minha narrativa e logo me liberou. Assim que cheguei em casa peguei o telefone e pedi: "Só um double mesmo."


Fonte de inspiração: Astronomy Picture of the Day, 21/07/08

terça-feira, 29 de julho de 2008

Enquanto isso, no Orkut...

...a conveniência premonitória rola solta:

Sorte de hoje: Se seus desejos não forem extravagantes, eles serão realizados.

domingo, 13 de julho de 2008

Novo blog exclusivo para as cascas dos ovos!


Visitem o blog exclusivo e recém-criado onde estarei publicando as tirinhas da série "na casca do ovo". O endereço é nacascadoovo.blogspot.com.

Aproveite e faça parte da comunidade do orkut.

Bom... num próximo post entro nos detalhes por trás dessas tiras.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

O sino da liberdade.

"Foi normal, nada demais," ele respondeu. Eu tinha-lhe perguntado quais foram suas impressões a respeito do seu primeiro dia de malhação numa simpática academia que abrira há seis meses na rua de trás. "Conheceu alguém interessante?", perguntei tentando esconder a insegurança. "Tinha um rapaz lá muito boa gente." Aliviada por seu interesse não ter sido investido em alguém do sexo oposto, continuei: "Será que eu conheço?" A pergunta faz sentido já que, conforme dei a entender no início do parágrafo, a academia localiza-se bem perto de onde moro. "Talvez, é um bem grandão. Ele é profissional." Pensei um pouco e não pude lembrar de ninguém, "Halterofilista?" "Isso." "Hum, não conheço. Deve morar em outro bairro." "Ele vai participar do seu primeiro campeonato profissional em Agosto." "Não acho bonito esses homens muito musculosos." "A questão não é essa, o legal é a determinação por trás dos músculos." "Nem venha querer ficar grandão assim." "Tá doida?, mal tenho coragem de malhar pra perder peso, imagine então pra ficar do tamanho de Hermes," ele disse me passando a panela molhada. Puxei o pano de prato e pus-me a enxugá-la. "O que leva alguém a querer ficar tão musculoso nos dias de hoje onde esforço físico é a menor das nossas demandas?" "Além de querer se enquadrar num padrão de beleza pré-estabelecido?" "É, além disso." "No caso de Hermes foi uma promessa." "Promessa?", virei interessada. "Ele prometeu para o pai no seu leito de morte," disse enquanto passava a esponja na frigideira enegrecida de ovo. "Prometeu que ia ser halterofilista?" "É." "Sério?" "Sério." "Do nada?" "O mais engraçado é que foi do nada mesmo. O pai dele nunca, em momento nenhum da vida, expressou qualquer indício de que apreciasse esse negócio de culto ao corpo." "E perto da morte ele pediu para que o filho fosse halterofilista?" Ele me passou a frigideira, "Na verdade ele disse fisiculturista, parece que tem uma diferença. Foram as últimas palavras dele." "Será que esse Hermes não pensou na possibilidade do pai estar delirando nos seus momentos finais?" "Ah, deve ter pensando... mas quando se trata das últimas palavras do seu pai a gente não pode se sustentar em conjecturas." Enxuguei dois copos, virei sorrindo e perguntei, "Então, se tivesse sido seu pai, você faria a mesma coisa?" "Sem sombra de dúvida." Fiquei calada por uns instantes. É engraçado como a morte ou a proximidade dela nos confere um poder quase divino sobre os outros. Quando somos atores ativos conseguimos o que queremos de quem quer que seja por via do medo da própria morte; quando somos atores passivos o poder se estende por aqueles nos ama e pelos que sentem compaixão por via da pena e da nossa capacidade de nos projetar no outro. "Isso pode ser ruim pra você, Glauber." "O quê?" "Pensar assim." "Assim como?" "Assim. Nesse negócio de achar que devemos fazer tudo o que nos pedem os entes queridos em seus leitos de morte." "Eu acho que isso é uma forma de conceder ao moribundo um último desejo; e que seja algo significativo, então." "Pois é, e você acha que ser halterofilista é significativo?" "Ah, mas quem somos nós pra julgar isso?" Senti uma coceira de irritação na garganta. "Se, em seu leito de morte, seu pai pedisse que você me deixasse, você faria isso?" Ele nem olhou pra mim. "Não seja ridícula, meu pai te adora." "Do mesmo modo que o pai de Hermes mal sabia o que era halterofilismo." "Fisiculturismo." "Que seja. Me responda." "Não quero responder isso, Helen. Que coisa boba." "Boba vírgula. A resposta para essa pergunta tem o papel de sustentar, ou não, os alicerces do nosso relacionamento." "Cacete, você vai longe, hein?" "Não fuja da resposta, Glauber." "Tá, pô. Eu te deixaria, pronto, satisfeita?" "Como é? Você me deixaria se seu pai pedisse isso no leito de morte dele?" "Deixaria. Que besteira." "Glauber, não me tire do sério! Quer dizer que se seu pai pedisse para você fazer sexo com nove prostitutas asiáticas ao mesmo tempo você faria?" "Se ele estivesse morrendo?" "Claro, a conversa toda é sobre isso!" "Nove é muito, não sei se agüentaria," o filho da puta respondeu rindo. "Viado do caralho!", gritei atirando o copo contra o chão. "Helen! Que é isso? Calma!" "Calma uma porra, viado! Quer dizer que se seu pai pedisse pra você chupar os testículos de dois bodes ao mesmo tempo, você chuparia?" "Você pirou." "Você preferia as nove putas asiáticas ou os ovos dos bodes?" "As nove putas, eu acho..." "Safado!" "Calma." Depois da briga fui para a casa da minha mãe. Dormi por quatro dias lá. Glauber não telefonou uma única vez. Quando voltei ele não estava em casa, mas os vizinhos avisaram que ele teve que fazer uma viagem urgente para o interior; disseram que o pai dele estava muito mal e sua mãe havia ligado para que ele fosse ver o pai antes que o pior acontecesse. Rezei para que o velho morresse antes que pudesse falar com o filho.


Fonte de inspiração: Astronomy Picture of the Day, 06/05/99

terça-feira, 27 de maio de 2008

Na Base #05.

Morrissey é o The Smiths. Minto, Morrissey é muito mais que o The Smiths e a sua carreira solo prova isso. Abaixo, Morrissey e toda sua intensidade performática no palco:



Morrissey
"First of the Gang to Die"

You have never been in love,
Until you've seen the stars,
reflect in the resevoirs

And you have never been in love,
Until you've seen the dawn rise,
behind the home for the blind

We are the pretty petty thieves,
And you're standing on our street..

...where Hector was the first of the gang
with a gun in his hand
and the first to do time
the first of the gang to die. Oh my.

You have never been in love,
Until you've seen the sunlight thrown
over smashed human bones

We are the pretty petty thieves,
And you're standing on our street..

...where Hector was the first of the gang
with a gun in his hand
and the first to do time
the first of the gang to die. Such a silly boy.
Hector was the first of the gang
with a gun in his hand
and a bullet in his gullet
and the first lost lad to go under the sod.

And he stole from the rich and the poor
and the not-very-rich and the very poor
and he stole all hearts away
he stole all hearts away
he stole all hearts away
he stole all hearts away


Relembre os "Na Base" anteriores: 01 (Bright Eyes, Lua), 02 (Thom Yorke, The Clocks), 03 (Magic Numbers, I See You, You See Me), 04 (The Beach Boys, Wouldn't It Be Nice & Brian Wilson, Heroes and Villains).

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Na tela de prata.

Nos deitamos na rede e ficamos olhando as estrelas. Em muitos momentos da vida nossos gestos não passam de imitações patéticas daquilo que assistimos no cinema ou na TV. Gostamos de simular aquela realidade, de trazer um pouco de sonho para o que convencionamos chamar de mundo real. Foi por esse motivo, acredito, que nos deitamos na rede e ficamos olhando as estrelas naquela noite de primavera. Não falamos nada um para o outro, embora pudéssemos simplesmente dizer algo como, "Estamos fazendo igualzinho a como se faz no cinema;" "É mesmo, pensei a mesma coisa," responderia ela antes de me beijar com paixão. Mas não. O silêncio nesses casos, nesses momentos em que maquiamos nosso entorno de forma tão consciente, é o laço invisível que dá unidade à cena. Assim como os melhores atores mantêm-se impassíveis a quaisquer desordem fora da cena em que vivem naquele momento, devemos sempre observar as estrelas em silêncio. É lindo. "Eu passei a noite com Hélio ontem," disse-me ela de súbito. Virei rápido, "Como assim?" "Fiz sexo com ele." "Que caralho é isso?", gritei empurrando-a. "Desculpa falar assim do nada. Achei que fosse melhor do que enrolar." "Porra, é sério mesmo?" "Eu não brincaria com uma coisa dessa, mas fique calmo, eu explico." "Explicar o que, cacete!?" Ela ficou calada. "Por quê?", insisti. "Por que, o quê?" "A gente tinha acabado de voltar, eu não mereço isso." "Não é questão de merecer, Sávio. Eu errei, seu irmão errou também." "Piranha!" Ela não respondeu. Fiquei sem saber o que pensar direito. Pipocou-me na cabeça um desejo incontrolável de quebrar pratos e chorar. Coloquei a mão no rosto como se segurasse a parte superior do nariz: o polegar no canto externo do olho esquerdo e o dedo indicador no outro, e último, olho. "Vagabunda do cacete!", gritei mais forte projetando a mão em sua direção como se meus dedos pudessem projetar adagas venenosas contra a sua jugular. "Não precisa exagerar," ela teve a coragem de dizer. "Exagerar?, exagerar?, porra! Enlouqueceu? Você tinha jurado que não ia mais me enganar." "Eu não te enganei, Sávio. Estou cumprindo minha promessa. Contei tudo pra você. Só não contei antes por falta de oportunidade." "Oportunidade pra trepar com ele você teve, né?" Ela fez uma cara de lá-vamos-nós-de-novo e voltou para a rede. Discutimos por duas horas e quarenta. Ela sabia que não havia nenhuma desculpa respeitável para o que fizera na noite anterior, mas mostrou-se verdadeiramente arrependida. Pude ter certeza disso quando ela chorou. Cheguei a sentir uma quantidade razoável de lágrimas pingar na minha perna. Nos abraçamos e como bom cristão concedi-lhe pela terceira vez a graça do perdão. Amores verdadeiros não devem acabar assim, mas sim sob esse belíssimo teto estrelado que, novamente, se exibe para nós. Como nos filmes.


Fonte de inspiração: Astronomy Picture of the Day, 27/12/07

domingo, 25 de maio de 2008

Ivan Gusttavo, pintor.

"Ivan Gustavo?" "É. Não gostou?" "Não é bem isso," menti, "é que é meio diferente." "É, e eu coloquei os dois tês para diferenciar ainda mais." "Dois tês?" "Em Gusttavo." "Ah, é Gusttavo?" "Isso, com dois tês." "Sei..." Baixei a cabeça e olhei mais um pouco para aquela pessoinha tão tão tão pequena mas já portadora de um fardo dos mais pesados. Li recentemente nas últimas páginas de um livro que o nome da gente é a única coisa que temos certeza de que será eterna. Se desconsiderarmos a (remota) possibilidade dos cartórios um dia serem extintos das regras que regem a nossa dinâmica social e pensarmos um pouco nessa imortalidade do nome próprio chegamos num terreno onde eu poderia, com absoluta tranqüilidade, agredir fisicamente aquele homem ao meu lado. Seria uma espécie de vingança antecipada à vida asquerosa que ele acabara de presentear ao seu filho. "É que meu pai gostava muito de Van Gogh," ele disse aparentemente ao acaso enquanto eu pensava em socá-lo com força no seu pomo-de-adão, fazendo-lhe engasgar com a própria tireóide. "E o que tem a ver?", perguntei. "Ivan Gusttavo, Van Gogh, não entendeu?" "O nome Ivan Gusttavo é pra ser uma referência a Van Gogh?" "Claro, pô. São bem parecidos." "Os nomes não têm absolutamente nada a ver." "Como não? As iniciais são as mesmas e se você falar rápido parece até o mesmo nome." "Claro que não parece! E porque diabos você não chamou ele de Van Gogh? Ou até mesmo de Vincente." "Vincente? Nada a ver do caralho." Consegui ficar ainda mais puto. Ele balançou a cabeça de leve e olhando para o lado disse, "Fiquei com medo da professora não saber pronunciar o nome direito e chamar ele de Van Goge, tipo como se fosse um jota. As crianças sofrem a vida toda com esse tipo de coisa." E ele pensa que Ivan Gusttavo o faria sofrer menos? Imbecil. "Olha," eu disse, "só acho que você devia ter feito alguma pesquisa antes. Também acho que nome é uma coisa importante. Ivan Gusttavo não passa de uma má adaptação de dois nomes típicos do norte da Ásia." "Eu sabia que você tinha odiado. Porque não falou logo?" "Não é que eu não gostei, cara. É que é muito feio!" "Dá no mesmo, caralho," ele disse antes de bater a porta. Do lado de dentro, ainda gritei, "Você matou o menino!" O barulho fez com que a pequenina caricatura soviética de Van Gogh acordasse. Tentei sorrir, mas não deu. Apoiei os cotovelos no berço e encarei seus olhos que, em retorno, pareciam suplicarem-me por ajuda. Então, como se fosse um membro daquelas famílias que se envergonham por ficar na dúvida entre desligar ou deixar ligado os aparelhos que garantem a sub-vida de um parente que convalesce na cama de algum hospital particular, pensei brevemente em furar os olhinhos de Ivan Gusttavo usando meus dois polegares. Fundo o suficiente para fazê-lo parar de respirar. Seria uma forma de salvá-lo da vida medíocre em que teria dali em diante. Levei minhas mão até o seu rosto, alisei suas sobrancelhas, sorri amarelo e disse, "Oi, Ivan, sou eu, tio Edésio." Vinte anos depois Ivan nos chamou para sua primeira exposição. Não foi ruim.


Fonte de inspiração: Astronomy Picture of the Day, 23/05/08