1. Bob Dylan é um gênio.
2. Samuel Rosa cantou mal.
3. Kaolin não fez feio.
sábado, 22 de dezembro de 2007
quarta-feira, 19 de dezembro de 2007
Acômico #001: O espirro-código e a verdade.
Sabe quando alguém fala a palavra "mentira" ao mesmo tempo em que finge estar espirrando? Qual a real graça disso? Alguém pode me dizer? Caralho!
Bom, deixa eu me recompor...
Confesso que, aqui, estou partindo do princípio de que essa atitude de chamar alguém de mentiroso através de um falso espirro tenha, em princípio, uma finalidade de ordem cômica. Falo isso porque na totalidade dos casos que presenciei, as pessoas riam daquele que projetava o espirro para, em seguida, o próprio rir de si mesmo; deixando, na maioria dos casos, o alvo do espirro acusatório absolutamente sem graça.
Disso, acredito que o fato do acusado desconcertar-se diante da situação é um forte indício de que a maioria de nós consegue distinguir um espirro original desse espirro que articula verbalmente a palavra "mentira". Então, se de fato somos dotados de tais faculdades de distinção, eliminamos a possibilidade desse espirro falso ter como pretensão o honrado objetivo de alertar uma terceira pessoa das possíveis inverdades contidas na narrativa do acusado.
Se assim fosse, a mensagem passada do espirrador para a humilde vítima das pretensas mentiras do narrador seria a seguinte: "Querido amigo, não deves estar ciente do que está a lhe acontecer, mas na verdade estais sendo vítima de um verdadeiro bandido; refiro-me, claro, ao malévolo narrador ao qual agora escutas com atenção indevida; sua narrativa é recheada de inverdades que visam, como é natural de todas as inverdades, destruir a sua felicidade e, por fim, a sua vida; por isso, presta atenção nesse meu código."
Pensando bem, sejamos mais prudentes nessa análise. Alguém poderia contra-argumentar que ao objetivar tal alerta não necessariamente, em princípio, tal espirro também tomaria por rumo a completa discrição. Em outras palavras, cogitemos a possibilidade daquele que espirra não ter a mínima preocupação em esconder do acusado de mentir a ajuda que está a prestar para a segunda pessoa, que ouve passivamente e, por que não, amigavelmente as supostas falácias. Talvez, assim, a honraria se mantivesse. Pensando assim, o objetivo do espirro falso seria alertar um desatento ouvinte das mentiras do narrador sem preocupar-se com o fato do narrador estar presente e ciente do alerta.
Suponhamos tal possibilidade somente afim de pretender rigidez e seriedade na nossa argumentação. Portanto, ao pensarmos em tal possibilidade, o acusador, ao espirrar, estaria passando a seguinte mensagem para o narrador: "Apesar de estares certo de que estamos caindo passivamente nessa sua história recheada de nojentas inverdades, deverias estar certo de que eu possuo as faculdades mentais necessárias para dar conta não só de identificar suas porcas mentiras, como também de alertar todos os ouvintes através de um falso código que, no fundo, sei que será compreendido também por ti, o que te coloca numa posição de absoluta humilhação diante dos risos daqueles que antes te adoravam, maldito."
Na verdade, a possibilidade ou a impossibilidade do que foi levantado no penúltimo parágrafo em nada afeta a real condição essencialmente acômica do falso espirro. Mesmo que o espirrador saiba que o acusado entenderá sua pseudo-codificação, o falso espirro ainda não deveria provocar a hilaridade, visto que não passaria de uma agressão sem qualquer argumentação dirigida a um atencioso narrador.
Então, porque bananas as pessoas riem desse espirro-código?
Sugiro aqui uma hipótese que origina-se do fato de que são muitas as expressões acômicas que por alguma subversão lingüística perdida no passado vieram a tornar-se hilárias em alguma situação específica. Tal especificidade, no entanto, esvanece-se no tempo, restando apenas o comum ato social de rir de coisas que não fazem sentido nenhum. Tal seria o caso do espirro acusatório. Nesse caso, rimos mais por educação ou por uma miserável pena daquele que espirra enquanto balbucia a palavra "mentira".
Dessas duas possibilidades, sinto-me inclinado a acreditar que o riso se dá mais por pena mesmo. Mas não é uma pena simplória e reduzida à condição de sentimento de conceituação digna de um mini-dicionário escolar. É uma pena que ao mesmo trás consigo também medo e compaixão. Como quando rimos sem vontade da piada contada pelo nosso chefe ou pela nossa recém-conquistada namorada.
Por fim, o verdadeiro código dessa situação que aqui analisamos não reside no espirro, mas no riso daqueles que, no fundo, desprezam aquele que espirrou ao mesmo tempo em que, humilhantemente, tentava verbalizar a palavra "mentira". Dessa forma, a mensagem codificada e emitida por tal riso é a seguinte: "Infeliz e detestável indivíduo que agora finges ser portador de um resfriado, será que não percebes que a mistura que executa entre o ato animal de espirrar e a verbalização da palavra 'mentira' nada mais faz do que colocar-lhe numa posição de total inferioridade diante de nós, detentores de raciocínio claro o suficiente para julgar por conta própria o que desejamos tomar por verdade ou não? Será que não percebes que a verdade não é aquela que nosso amigável narrador emite, ou muito menos aquela que, por clara ineficiência intelectual de tua parte, alerta-nos? A verdade é nada mais o resultado dos nossos filtros mentais; é um caleidoscópio de conexões de realidades distintas, mas indistinguíveis. Portanto, por acreditar que é o máximo que merece, ofereço-lhe o meu riso na esperança de que um dia saia dessa gaiola que criastes para ti mesmo."
Escrito por
Bruno O. Barros
às
3:05 PM
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domingo, 9 de dezembro de 2007
Beowulf e as malditas mulheres.
Neil Gaiman e Roger Avery adaptaram o clássico poema Beowulf num filme foda.
A maior diferença entre o poema original e o filme é que o herói, Beowulf, ao invés de ser tratado como o herói clássico (impassível de erro), Gaiman e Avery tiveram a genialidade de entender que o poema é dotado de uma narrativa comprometida, e, daí, desenvolveram um Beowulf cheio de defeitos e, principalmente, mentiroso - que sempre aumentava seus feitos para que os poemas que fizessem sobre ele fossem sempre grandiosos. No filme Beowulf mente a respeito dos seus feitos (mentiras estas que são tratadas como verídicas pelo poema original) e, portanto, ao invés de matá-la, deixa-se cair nas tentações da grande vilã do filme: a mãe de Grendel.
Essa sacada metalinguística fez do filme um alvo dos críticos (que dizem que o filme não é fiel à obra original, mas na verdade nem leram o poema), mas também uma verdadeira obra prima.
Além disso, pude assistir o filme no formato original, digital em 3D (com óculos e tudo). É simplesmente indescritível o quanto o filme é visualmente lindo quando assistido assim.
Quero muito ver de novo.
Escrito por
Bruno O. Barros
às
2:56 AM
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Marcadores: Críticas
quarta-feira, 5 de dezembro de 2007
Muito mais que uma pequena bailarina. Muito.

Eu me lembro da primeira vez que a vi dançar. Juro. Ela era a menor de todas e passeava de um lado para o outro no palco num movimento ordenado. Apesar de ser, desde pequena, uma exímia dançarina, não era exatamente sua habilidade de se expressar através da dança que me chamava a atenção, mas sim o fato de estar vendo uma pessoa tão pesada flutuando como uma pluma. E, pra deixar claro, não me refiro a um peso físico (afinal, na época ela não pesava mais que 20 quilos). Refiro-me a um peso de outra ordem. Paulinha nunca foi leve. Ela está mais para o quilo de chumbo que para o quilo de algodão.
Paulinha carrega em si uma gravidade própria. Seu olhar, seu falar e até seu sorriso é dotado de um pesar. Com todo o orgulho de um irmão admirador, sempre que a olho fico imaginando quantas vidas, quantas informações e quantos sentimentos complexos convivem naquele espaço (e como é possível tal convivência). Admiro-a com toda a força pela inteligência aguçada, pela espirituosidade e por todo conteúdo que - não sei como - carrega consigo.
Disso, afirmo: é um contraste vê-la no palco. Um contraste delicioso, curioso, necessário. E é por isso que é tão terrível não estar, pela primeira vez, presente na sua apresentação anual. Não vou ficar aqui dizendo que estarei lá de coração - o que é verdade, mas também é barato. Quero só deixar claro que é foda pra caralho não poder vê-la bailar no seu peso esquivo. Não poder fazer-lhe fotos. Não poder abraçar-lhe e dizer você estava ótima, parabéns baixinha.
Você faz uma falta sem tamanho. E quando estou aí diverte-me o coração a sua falta de jeito na hora de dizer que também sente a minha falta. Te amo, pequena. Muito.
Pra ti:
Escrito por
Bruno O. Barros
às
2:19 AM
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