segunda-feira, 28 de abril de 2008

H no início.

"Qual a sua cor predileta?" "Azul," respondeu firme. "Você sabia que azul é a cor favorita da maioria das pessoas?" "Mesmo?" "Mesmo." "Onde você viu isso?" "Não lembro, mas não importa... acho que faz sentido. Tudo o que não podemos ter é azul." "Tipo a calcinha daquela menina?" "Tipo o céu o mar." Ele não contestou. Dei outra mordida na coxinha de galinha e suguei um pouco de refrigerante de cola light pelo canudo branco com listras vermelhas verticais. Cerca de dez minutos depois eu estava sozinho sentado num banco da praça que fica em frente ao escritório só esperando o tempo passar, se é que podemos colocar as coisas nesses termos, já que deixar de passar nunca foi uma característica do tempo. Uma mulher de meia idade muito bem apessoada se aproximou como se fosse perguntar alguma coisa, mas apenas sentou-se ao meu lado e puxou um celular de uma bolseta arroseada. Em seguida, digitou uns números. "Oi? Sou eu. É, estou sabendo, e agora?" Enquanto ela falava, eu não conseguia tirar os olhos dos seus peitos. Eram extremamente bem formados e convidativos. Fiquei pensando, eu poderia muito bem arrancar-lhe o telefone, dizer cala a boca e encher aqueles peitos de beijos molhados enquanto friccionava meu púbis em suas ancas, mas optei por não externizar a idéia. Mas antes mesmo que eu conseguisse espanar a sujeira dos meus pensamentos, a mulher desligou o telefone e, sem olhar para mim, mas certamente para mim, perguntou: "É inacreditável, né?" "O quê, exatamente?", perguntei um pouco temeroso. "Você não ficou sabendo do novo pecado capital?" "O de ser rico?" "Isso." "Vi na internet hoje cedo." "A Igreja é muito ipócrita. Logo quem, o Vaticano... que moral eles têm para dizer que é pecado juntar dinheiro?" "Na verdade o pecado é juntar muito dinheiro. Pelo menos foi o que eu li." "Você é cristão, né?" Fiquei meio puto, mas respondi. "Ainda bem," ela disse, "eu acho todo cristão ipócrita." "Olha, desculpa, mas hipócrita tem h." "Como é?" "Hipócrita se escreve com h no início." Ela pareceu não entender e, virando o rosto para a esquerda, riu de leve. Aproveitei para olhar um pouco mais para o seu par de peitos. "Olha, tenho que ir." "Fique mais um pouco," pedi, embora a sua presença de certa forma me irritasse. "Estão me esperando no escritório." "Qual o seu nome?" "Michele, e o seu?" "Sávio." "Sávio," ela disse enquanto abria a bolsa, "pegue esse dinheiro e, por Deus, gaste!" Fiquei meio confuso, mas aceitei as duas notas de vinte reais. Antes que ela virasse dei-lhe um abraço e dois beijos no rosto. Ela corou, virou e se foi. Andei até o trailer da esquina e pedi "mais uma coxinha, por for favor."

Fonte de inspiração: Astronomy Picture of the Day, 28/04/08

domingo, 27 de abril de 2008

Estruturas incomuns no centro da nossa galáxia.

Só faltava mesmo a recorrente febre para fazer do nosso personagem uma paródia grotesca dos anti-heróis do realismo russo. Sim, o peso da pergunta resultou numa livresca pausa dostoievskiana. E, se bem recorda-se, ela perguntou "e você?", e mesmo que por si só pequenina sentença não detenha toda a carga dramática prometida por quem agora vos escreve, ao tomarmos conhecimento do conteúdo da conversa posterior à sintética interrogação, tudo se clareia. Sem rodeios, pois disso vivem apenas aqueles que não sabem onde querem chegar: ela, antes de fazer tal pergunta, falava dos seus sentimentos pelo quase febril Pedro Servil. Se tivesse sido fácil declarar a reciprocidade desejada por ela, Pedro assim o faria. Na verdade, mesmo se fosse difícil, Pedro não demoraria para presenteá-la com o esperado "eu também". No entanto, não era fácil, tampouco difícil. Era - na verdade - impossível. Não havia, em Pedro, qualquer tipo de fragmento de sentimento mesmo que somente superficialmente similar àquilo que brotava a jorros do peito daquela que o amava. Sendo assim, depois da supracitada pausa, Pedro disse apenas: "que horas são mesmo?", "Onze e doze.", "Já? Preciso ir... fiquei de encontrar o pessoal pra almoçar no Antônio's.", "Tá...", "Beijo.", "Beijo." E assim Pedro beijou-lhe apaixonadamente os lábios enquanto, com a mão esquerda, apertava-lhe a cintura.

Fonte de inspiração: Astronomy Picture of the Day, 27/04/08

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Momento clássico: trindade.

"Digam xis!"