"Só um double mesmo," respondi. Referia-me, claro, ao adjetivo duplicador da quantidade de carne no sanduíche. "O double está em falta, senhor," replicou aquele que em pouco tempo tornar-se-á o antagonista dessa história. "Não tem mais?", perguntei mais para mim mesmo que para a pessoa de boné. "Como eu disse, senhor, está em falta." "Em falta como?" "Senhor, hoje não temos mais como servir o double." O atento leitor certamente deve (se é que é possível atribuir-se certeza e em seguida fazer-se uso do verbo dever enquanto referente à dúvida) ter notado o malicioso uso da palavra senhor por parte do caixa da lanchonete. Caso algo de maior importância tenha-me roubado vossa digníssima atenção (se é que um dia esta me pertenceu), coloco-me na posição de fornecedor de uma explicação curta, mas segura. Sendo assim, caso o leitor já saiba o mínimo denominador comum das minhas suspeitas, sugiro que pule as próximos 1.450 caracteres, já que não posso tratar aqui em termos de parágrafos ou mesmo linhas (visto a minha dependência vergonhosa da distribuição espacial aparentemente arbitrária do processador de texto que governa esse blog). No entanto, antes de tratarmos do uso maquiavélico da palavra senhor, quero deixar claro que o número de caracteres citado logo acima é preciso, acurado e inclui, inclusive, o espaço após o último dígito. Dito isso, voltemos à malícia do caixa: Na primeira frase proferida pelo funcionário da lanchonete nesse texto, este posicionou a palavra senhor no terminal da frase; e nas frases subseqüentes essa mesma palavra foi empurrada (sem qualquer tipo de consideração) para uma posição mesial e primeira. Trata-se de uma transposição que revela um crescente nível de impaciência e, ao mesmo tempo, busca (num nível inconsciente) submeter aquele a que se dirige as assertivas a uma condição sub-humana, a um papel de servo, de mero criado no qual um cuspe na cara seria muito pouco se nivelado às coisas que tal abominação mereceria. Assim, por crer na alta educação do leitor, estou certo de que a cólera que de súbito erupcionou da minha garganta lhe soará totalmente justificada. Na frase a seguir estarei, portanto, dando continuidade à narrativa interrompida com o intuito de denunciar o caráter demoníaco do caixa que me negou o double; sendo assim, a contagem de caracteres (sem levar em conta o ponto final a seguir) terminar agora. "Vai tomar no cu, seu filho da puta do caralho!", gritei esbofeteando-lhe a face. Por algum motivo, aquilo gerou uma certa comoção entre alguns clientes da loja. É em momentos assim que me lembro do quão falso-moralista é o mundo. Pelo menos ninguém tentou me segurar e, por dever cívico, continuei: "Seu corno nojento, trate de preparar o meu double!" "Mas não tem, senhor...", respondeu baixinho a abominação que, de certo, defecara-se de medo (e é isso que aqueles que sabem que estão errado fazem: defecam-se no interior das próprias calças). "Não me chame de senhor, porra! NÃO ME CHAME DE SENHOR!", disse apontando-lhe na face. Acho que os sons gerados nesse tipo de situação chamou a atenção do superior daquele caixa e, de repente, um rapaz e seu crachá de gerência se aproximaram. "Senhor, posso saber o que está acontecendo?" Por ter uma boa educação, eu sabia que não deveria descontar meu ódio em alguém que acabara de se introduzir na discussão (e, possivelmente, com boas intenções). "Esse infeliz demoníaco, essa criatura rastejante, esse pigmeu leproso acabou de me negar um double por estar em falta!" "Calma, senhor, sugiro que se sente para conversarmos." O homem-crachá estava a um passo de colocar-se numa situação que - estou certo - não desejaria estar. "Não vou sentar e não estou nervoso e não me chame de senhor e me dê meu double agora. Não tem como estar em falta um sanduíche cuja única diferença de um outro mais simples é a adição de uma carne extra. Isso não existe! É só colocar uma carne a mais e voilá, temos o meu double." Ah, confesso que nesse momento fui muito mais solícito, paciente e doce do que costumo ser. Praticamente entreguei a chave da sabedoria para o inimigo, o perdão para o profano, a paz para guerra. "Olha, não é tão simples quanto parece, senhor..." Pois é. O crachá teve a ousadia de desferir-me um golpe logo após ter como oferta a paixão divina. Por ser humano, não me contive. "JUDAS! QUEIME AGORA!", gritei projetando meu cotovelo contra seu pomo-de-adão, golpe este que aparentemente o fez perder a consciência (se é que o infeliz crachá algum dia teve alguma). Mas, como todos sabemos, o mundo é injusto e por ser um só não resisti à força física da massa falaciosa que nos rege. Em segundos me imobilizaram e me golpearam. Na delegacia conversei com o delegado, mas este não parecia muito interessado na temática da minha narrativa e logo me liberou. Assim que cheguei em casa peguei o telefone e pedi: "Só um double mesmo."
Fonte de inspiração: Astronomy Picture of the Day, 21/07/08
segunda-feira, 4 de agosto de 2008
O duplo.
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