"Ivan Gustavo?" "É. Não gostou?" "Não é bem isso," menti, "é que é meio diferente." "É, e eu coloquei os dois tês para diferenciar ainda mais." "Dois tês?" "Em Gusttavo." "Ah, é Gusttavo?" "Isso, com dois tês." "Sei..." Baixei a cabeça e olhei mais um pouco para aquela pessoinha tão tão tão pequena mas já portadora de um fardo dos mais pesados. Li recentemente nas últimas páginas de um livro que o nome da gente é a única coisa que temos certeza de que será eterna. Se desconsiderarmos a (remota) possibilidade dos cartórios um dia serem extintos das regras que regem a nossa dinâmica social e pensarmos um pouco nessa imortalidade do nome próprio chegamos num terreno onde eu poderia, com absoluta tranqüilidade, agredir fisicamente aquele homem ao meu lado. Seria uma espécie de vingança antecipada à vida asquerosa que ele acabara de presentear ao seu filho. "É que meu pai gostava muito de Van Gogh," ele disse aparentemente ao acaso enquanto eu pensava em socá-lo com força no seu pomo-de-adão, fazendo-lhe engasgar com a própria tireóide. "E o que tem a ver?", perguntei. "Ivan Gusttavo, Van Gogh, não entendeu?" "O nome Ivan Gusttavo é pra ser uma referência a Van Gogh?" "Claro, pô. São bem parecidos." "Os nomes não têm absolutamente nada a ver." "Como não? As iniciais são as mesmas e se você falar rápido parece até o mesmo nome." "Claro que não parece! E porque diabos você não chamou ele de Van Gogh? Ou até mesmo de Vincente." "Vincente? Nada a ver do caralho." Consegui ficar ainda mais puto. Ele balançou a cabeça de leve e olhando para o lado disse, "Fiquei com medo da professora não saber pronunciar o nome direito e chamar ele de Van Goge, tipo como se fosse um jota. As crianças sofrem a vida toda com esse tipo de coisa." E ele pensa que Ivan Gusttavo o faria sofrer menos? Imbecil. "Olha," eu disse, "só acho que você devia ter feito alguma pesquisa antes. Também acho que nome é uma coisa importante. Ivan Gusttavo não passa de uma má adaptação de dois nomes típicos do norte da Ásia." "Eu sabia que você tinha odiado. Porque não falou logo?" "Não é que eu não gostei, cara. É que é muito feio!" "Dá no mesmo, caralho," ele disse antes de bater a porta. Do lado de dentro, ainda gritei, "Você matou o menino!" O barulho fez com que a pequenina caricatura soviética de Van Gogh acordasse. Tentei sorrir, mas não deu. Apoiei os cotovelos no berço e encarei seus olhos que, em retorno, pareciam suplicarem-me por ajuda. Então, como se fosse um membro daquelas famílias que se envergonham por ficar na dúvida entre desligar ou deixar ligado os aparelhos que garantem a sub-vida de um parente que convalesce na cama de algum hospital particular, pensei brevemente em furar os olhinhos de Ivan Gusttavo usando meus dois polegares. Fundo o suficiente para fazê-lo parar de respirar. Seria uma forma de salvá-lo da vida medíocre em que teria dali em diante. Levei minhas mão até o seu rosto, alisei suas sobrancelhas, sorri amarelo e disse, "Oi, Ivan, sou eu, tio Edésio." Vinte anos depois Ivan nos chamou para sua primeira exposição. Não foi ruim.
Fonte de inspiração: Astronomy Picture of the Day, 23/05/08
domingo, 25 de maio de 2008
Ivan Gusttavo, pintor.
Assinar:
Postar comentários (Atom)

2 comentários:
=)
Bu, amei, gostei mesmo, vc sempre acaba me fazendo sorrir, te amo
Postar um comentário