
O que foi?, perguntou Andrade antes mesmo que o pequenino Ícaro pudesse sentar-se à mesa. Eu sei que aconteceu alguma coisa, está estampado na sua cara. Sem responder, Ícaro levantou a mão esquerda, e nela havia um envelope com o símbolo do colégio. Diabos, Ícaro, o que você foi aprontar dessa vez? Helena, tomada pela forma dura como Andrade expeliu aquela última frase, aproximou-se do filho. O que foi, amor?, perguntou num tom doce. Ícaro recebeu alguma advertência do colégio. Calma, amor, a gente nem sabe o que é ainda. Helena, então, pega o envelope da mão de Ícaro, o abre num movimento rápido e põe-se a ler um o conteúdo de uma folha A4 que estava ali contida. Menos de vinte segundos foram necessários para que ela se sentasse no sofá e, com uma expressão que denotava um misto de surpresa e estranheza, permaneceu em silêncio. Andrade, impaciente, puxou a carta para si e pôs-se a lê-la. Para não sabotar o momento, dedico um novo parágrafo à próxima fala de Andrade...
CARALHO, ÍCARO! Que merda é essa? Você chamou o padre de punheteiro? O pequeno Ícaro nada respondeu, limitando-se a inclinar a cabeça um pouco para baixo. Como foi que isso aconteceu?, acho melhor você ter uma boa explicação, meu filho, disse Andrade claramente falhando em esconder uma certa oscilação entre a vergonha e o orgulho que agora sentia pelo filho. Ícaro, então, diz simplesmente que Ele estava batendo punheta no vestiário dos meninos depois da aula de educação física. Aquele padre safado é um punheteiro mesmo. Ícaro, retrucou logo o pai, em primeiro lugar: onde é que você anda aprendendo esses termos?, em segundo: porque diabos o vigário estaria se masturbando no vestiário masculino? Isso tá me cheirando mal. Ícaro revelou que seu vocabulário fora amplamente atualizado graças a um fórum sobre quadrinhos o qual ele visitava diariamente através da Internet, e confirmou que o padre estava a se masturbar, o que transformaria o seu suposto xingamento numa simples assertiva.
No outro dia Andrade dirigiu-se ao colégio logo cedo e passou quarenta e três minutos numa sala esperando para ser atendido pelo padre, de forma que aquela situação embaraçosa fosse resolvida de uma vez por todas. Bom dia Sr Andrade!, disse o puto do padre punheteiro. Bom dia o diabos! Como é que o senhor me deixa quase duas horas esperando lá fora pra resolver uma situação onde o senhor é o culpado? O padre pareceu inabalado e disse apenas Sente-se, por favor. Então Andrade resumiu a revelação feita pelo seu filho no dia anterior, o que justificaria o fato de tê-lo chamado de punheteiro. Veja bem, continuava Andrade, Não podemos dizer que ele ofendeu o senhor, se de fato o senhor estava a se masturbar no vestiário. É a mesma coisa que passar um pipoqueiro aqui agora e eu gritar "Ô pipoqueiro!" e ele considerar isso uma ofensa. O padre, então, pôs-se a falar, O senhor está equivocado. Tem certas verdades que, dependendo do contexto, podem ser entendidas como ofensas brutais. Se um negro passar por aqui agora e eu gritar "Ô negro!", a situação não será facilmente resolvida. Em segundo lugar, era o seu filho quem estava se masturbando quando eu cheguei no vestiário. Meu filho tem 8 anos, seu viado!, respondeu Andrade. O padre levantou-se com uma expressão de fúria estampada na cara, caminhou em direção a Andrade e, com a mão esquerda, apertou-lhe com uma certa suavidade os testículos. Em seguida disse, viado é você, seu porra. Suma daqui e vá ensinar seu filho a se comportar como gente.
Andrade chegou em casa e disse que não pôde ir no colégio porque passou o dia atolado de trabalho no escritório.
sexta-feira, 31 de agosto de 2007
O conto do vigário.
Escrito por
Bruno O. Barros
às
10:57 PM
1 comentários
Marcadores: Ficções
quarta-feira, 29 de agosto de 2007
As vozes do Claustro.
Dr Silvério já estava quase apagando as luzes quando alguém bateu na porta. Maldição, pensou em segredo enquanto dirigia sua mão esquerda à maçaneta. Perdão pelo atraso, disse logo Claustro. A culpa não foi minha, Edna pediu pra eu deixar os meninos no caratê e o trânsito estava um inferno. Tudo bem, mentiu Silvério, Sente-se, completou apontando para o sofá. Claustro era seu último paciente antes do feriado e ainda que ele não tivesse se atrasado tanto, a característica paciência do doutor já não estava muito presente naquele dia. O atraso de Claustro só piorou a situação. Claustro, disse seco o Dr Silvério, Como andam as vozes? Ainda têm te perturbado? Claustro sentou-se devagar, ficou alguns instantes em silêncio e disse Muito olhando fixamente para o médico. Não melhoraram nem um pouco?, nem mesmo com a medicação?, perguntou Silvério fingindo interesse. Não, respondeu Claustro, Na verdade, doutor, eu senti até uma piora. Uma piora? Isso. Hum, murmurou Silvério. Claustro, você se lembra que semana passada eu pedi para você andar com um gravador portátil e sempre que você ouvisse as tais vozes, você registrasse no gravador? Lembro, doutor. E então, você registrou o que as vozes diziam? Eu fiz melhor, doutor... eu consegui gravar as vozes da minha cabeça diretamente no gravador. Como é?, perguntou assustado o médico. É isso mesmo, eu consegui gravar diretamente na fita tudo o que estava ouvindo na minha cabeça. Então, incrédulo, Dr Silvério pediu para que Claustro colocasse o gravador sobre a mesa e apertasse o botão play. Foi o que Claustro fez, e ele o doutor ouviram exatamente o seguinte:
E aí, doutor, perguntou Claustro, É normal ouvir essas vozes? Dr Silvério encostou-se na sua cadeira, ponderou um pouco e disse Sim, é perfeitamente normal. Agora, nunca mais apareça por aqui.
Escrito por
Bruno O. Barros
às
11:28 PM
0
comentários
Marcadores: Ficções
segunda-feira, 27 de agosto de 2007
E DAÍ?
Escrito por
Bruno O. Barros
às
7:37 PM
0
comentários
Marcadores: Notícias
domingo, 26 de agosto de 2007
A taxonomia definitiva.
O texto abaixo é um fragmento de uma idéia originalmente concebida por mim e Ramon (Ayres). Hoje essa texto é peça fundamental no meu profile do Orkut.
Hoje eu acordei com uma idéia inacreditável na cabeça.
Qual?
Foi completamente do nada. Simplesmente surgiu! E com medo de perder a idéia me levantei rapidão, catei um papel, mas não achei nem caneta nem lápis.
Não tinha no estojo?
Aí é que está: não achei o estojo. Entrei logo em desespero porque a idéia que eu tive era daquelas que, se bem aplicada, pode mudar a vida de uma pessoa para sempre.
Será que não ficou na universidade?
O quê?
O estojo.
Foi o que eu tinha pensado. Entrei na internet pra procurar o número do telefone da universidade e quando liguei pra lá ninguém sabia dizer exatamente se existia ou não algum setor de achados e perdidos.
E porque você não anotou sua idéia no bloco de notas do computador.
Putz, é verdade. Nem pensei nisso. Acabei focando no estojo. Só sei que quando cheguei lá me dei conta que a carteira da biblioteca tinha ficado em casa, e o único lugar onde eu poderia ter esquecido o estojo era na sala de estudo da biblioteca. Sempre chego, sento, arrumo os livros e coloco o estojo do lado.
Odeio esse sistema de só poder entrar com a carteira.
E eu não? Briguei feio com o segurança.
Mas você ainda se lembra da idéia?
Lembro, mas com menos detalhes.
Diz aí.
Você sabe o que é uma taxonomia?
Não.
É tipo um apanhado de informações classificadas com um determinado critério com o objetivo de organizar alguma coisa. Tipo a classificação dos organismos vivos em reinos, famílias, aquele lance todo, entende?
Isso é uma taxonomia?
Bem resumidamente, sim.
He, he, he.
O que foi?
Nada.
Diz, pô. O que foi?
Besteira, rapaz.
Putz, diz aí, caralho!
É que pelo nome eu pensava que tinha alguma coisa a ver com gado.
Gado? Tipo boi?
É. Eu falei que era besteira. Fala logo sua idéia.
Tá, mas como diabos taxonomia teria a ver com boi? Se você falasse que tinha algo a ver com taxas do governo ou algo parecido, tudo bem... mas boi?
Pô, se tivesse algo a ver com taxas do governo seria muito óbvio. Minha mente não é assim tão barata.
Ah, então associar taxonomia à população bovina é sinal de refinamento intelectual agora?
Só estou dizendo que não costumo pensar sempre o óbvio. Associar taxonomia a algo relacionado a taxas só porque aparentemente o radical das palavras é o mesmo é coisa pra estudante do nível médio.
Mas o radical não é o mesmo.
Não importa. Diz logo a idéia.
Tá, eu tinha pensado que seria muito interessante para o mundo gerar uma taxonomia de tipos físicos.
Essa é a sua grande idéia, pensador?
Não dispense a idéia tão rapidamente. Ela não seria uma taxonomia qualquer, pois isso até já existe. Calma, calma, não saia. Escute primeiro. Essa taxonomia seria capaz de uma precisão impossível de encontrar no que vemos hoje.
Cara, essa idéia de classificar tipos físicos me cheira um tanto nazista.
Não seja barato, meu caro. Assim você me ofende. Escute o que tenho a dizer. O mundo precisa de uma taxonomia nesse sentido, mas uma que seja absolutamente precisa. Uma que não deixe espaço para dúvidas. Aquele bandido que levou meu estojo, por exemplo, poderia ter sido observado por uma testemunha cujo depoimento para a polícia (se calcado na minha taxonomia) descreveria o meliante com tanta propriedade que nem mesmo uma fotografia do mesmo seria tão clara. Seria uma resposta do tipo “o assaltante era um Arauto 16 Leopoldino 211 Matusalém 2 Quadrado Jupteriano 823.”
...
O que achou? Onde você está indo? Espere. Pare aí. Ei, alguém segure esse Guagalupe 21 Rubro 89 Venerado Ulampiano 302!
Escrito por
Bruno O. Barros
às
6:24 PM
0
comentários
sábado, 25 de agosto de 2007
Comédia em Pé.
Aqui no Rio tem um grupo de comediantes tentando fomentar no Brasil o espírito do stand-up comedy, aquele tipo de comédia americana onde alguém sobe no palco e começa a falar sobre o cotidiano; e nessa narrativa está embutida as suas piadas. Aqui no Rio eles estão se apresentando no Shopping Barra Square e no UCI do Barra Shopping.
Abaixo, alguns vídeos...
Escrito por
Bruno O. Barros
às
4:12 AM
0
comentários
Marcadores: Sugestões
Se tudo der errado na minha vida, esse serei eu idoso:
Escrito por
Bruno O. Barros
às
2:53 AM
0
comentários
Marcadores: Música
sábado, 18 de agosto de 2007
O cão falante.
Apesar de todos os indícios, ele se negava a perceber que já não lhe restava mais chance de vitória. Insistiu por orgulho e perdeu todo o dinheiro que tinha levado consigo. A fúria pela derrota lhe deixou adormecido, de forma que nem as chacotas mais contundentes lhe atingiam. Saiu, então, do recinto e pôs-se a caminhar naquela madrugada morna. Cruzou dois quarteirões até chegar no ponto do ônibus que o deixaria em casa. O cansaço do dia logo lhe pediu que sentasse, e assim o fez. Não havia carros em movimento nem de um lado nem de outro da avenida. Alguns minutos se arrastaram e nada do ônibus que era-lhe alvo aparecer. Talvez nem passasse naquele horário. E assim que pensou nessa possibilidade ele viu um grupo de pessoas surgirem a uma distância segura. Tomara que não atravessem a avenida, pensou. Caso tal travessia de fato ocorra, colocar-me-ei em disparada na direção oposta. O grupo, que agora poderiam ser discernido em quatro indivíduos possivelmente do sexo masculino, atravessou a avenida, mas de última hora nosso cansado protagonista achou mais prudente não correr; tal ato poderia despertar uma reação adversa (e até perigosa) naqueles possíveis adolescentes trabalhadores. Os quatro indivíduos se aproximavam numa velocidade relativamente incômoda, revelando-se, por fim, quatro homens crescidos, e não adolescentes. Munido de coragem, o protagonista levantou-se e bradou: Estou armado seus vagabundos infames! Posso atirar bem no meio da cara de vocês se assim desejar! O som da sua voz esganiçada parece ter soado como um trovão aos ouvidos daqueles quatro homens, que (como se fossem arrebatados por uma descarga elétrica) colocaram-se a correr desesperadamente na direção oposta àquela de onde vinham. Sem entender exatamente porque o fazia, o protagonista começou a correr atrás das quatro vítimas. Passaram-se um, dois, três quarteirões. Vai tomar tiro na cara, vagabundo!, gritava. Os quatro já estavam ofegantes de tanto correr, e quando o protagonista se sentiu seguro novamente, parou de persegui-los, olhou para o lado e viu que um cão lhe observava com interesse. O que é que você está olhando?, indagou irritado. O cão nada disse a princípio, mas quando o protagonista pôs-se a caminhar em direção ao ônibus, pôde ouvir com clareza uma voz que (a julgar pela direção de onde vinha) parecia pertencer ao cão, que agora dançava; e a voz dizia exatamente assim:
Escrito por
Bruno O. Barros
às
4:19 AM
1 comentários
Marcadores: Ficções
sexta-feira, 17 de agosto de 2007
quinta-feira, 16 de agosto de 2007
Eu sou bom (e tire com o gancho).
Se ser bom fosse dar certo, eu não seria tão bom quanto eu sou. As vezes passo horas escutando os pequenos clássicos das bandas que já montei: Sonnet (1999-2003), Mala Mágica (2003-2004), Os Verdes (2005-2006) e, atualmente, Daniel, O Invisível. Esses momentos de contemplação e de masturbação do ego me fazem sentir o quanto frio é o chão e o quão genial você se torna com a cabeça nas nuvens. Fiz muita coisa boa com o Sonnet e com o Mala Mágica. Foram muitos microclássicos da música independente inexistente. Todos estes numa época em que sonhos adolescentes ainda eram válidos como combustível da vida. [na foto ao lado, Sonnet em 2000: Ramon Ayres, Matheus Batalha, Danilo Ryuko, Assis Almeida, Bruno Barros]
Com Os Verdes eu já estava desgostoso da realidade da cena independente e apesar de gostar de algumas músicas dessa fase, acabei me deixando levar mais pela virtuose criativa dos meus parceiros de banda. Tocando com Os Verdes, meu olhar a respeito da música independente já era duro e cínico (algo que veio se construindo nos últimos meses de vida do Mala Mágica). Eu já tinha levado muito toco. Já tinha me dado conta do quão patético e artificial é público que frequenta os shows alternativos. Inclusive, foi essa visão cansada que me fez repensar a idéia que eu fazia dos shows. Comecei a entendê-los com apêndices defeituosos do verdadeiro potencial criativo dos músicos ali tocando. Estava na hora de fazer música por regozijo próprio. E só. Sem shows nem nada disso. Estava na hora de fechar min
Com excessão d'Os Verdes, sempre tive como parceiro musical o saudoso e auto-destrutivo Assis. Físico, cachaceiro e conhecedor dos prazeres da vida, Assis sempre foi melhor que eu na construção de progressões de acorde. Temos algumas idéias afins e muitas outras diversas. Daniel, O Invisível, surgiu desses raros momentos em que concordamos totalmente com algo. Estava na hora de ignorar a cena, as pessoas, a vontade de ser ouvido. A idéia agora era só reunir um grupo de músicas nossas, gravar, colocar num site, e só. Sem divulgação. Sem show. Sem porra nenhuma. O primeiro volume de Daniel, O Invisível, reuniu quatro pseudo-sambas que vinhamos guardando em nossos HDs havia algum tempo. Tenho muito orgulho desse disco. É pequeno, simples, bem feito e (muito) sincero. [na foto ao lado, show do Sonnet em Março de 2002 no Kaxaçaria, na Orla de Atalaia em Aracaju]
Eu diria até que Daniel, O Invisível, é o meu grande masterplan.
É onde eu posso respirar aliviado, sem pretensões adolescentes, sem
obrigações ou cobranças. É o meu baú. É onde depositarei tudo aquilo
que faço musicalmente e que chamo de arte. Os meus devaneios e chistes musicais eu deposito no YouTube como Tio BOB, hehe.
O segundo volume do Daniel, O Invisível, deverá ter por volta de quatro a cinco músicas, e provavelmente todas estas serão retomadas da época do Mala Mágica. Serão músicas que merecem, como Lázaro um dia o fez, respirar por mais tempo do que o destino lhes havia reservado. Se pudermos ainda incluiremos duas música cujas composições não são nossas, mas de Lúcio Poconé, nosso querido junkie baixista do Mala Mágica. Espero que esse volume saia até o final de Dezembro. Essas gravações são sempre complicadas. Eu moro no Rio. Assis em Recife. E Léo Airplane (o produtor) em Aracaju. Mas no Natal a gente dá um jeito.
Escrito por
Bruno O. Barros
às
4:06 AM
4
comentários
Marcadores: Música
quarta-feira, 8 de agosto de 2007
Semi-deuses do TOSCO!
Eu pensava que a Please No!, em toda sua auto-consciência, de alguma forma conseguia ser tosca. Pensava isso também da sagaz Marli e seu famoso videoclipe... mas sempre que encontro coisas como СтеклоVата fica-me mais claro que as coisas mais toscas são sempre as mais sinceras.
Abaixo, o clipe de Новый год:
Escrito por
Bruno O. Barros
às
1:43 AM
4
comentários
