Hoje eu estava no ponto de ônibus pensando sobre como funciona o processo evolutivo dos nossos sentidos (visão, audição, olfato, tato e paladar) enquanto escutava Björk sem entender exatamente como eu havia aprendido a apreciar aquele som esquisito. Como é possível, por insistência, passar a gostar de algo que tínhamos repulsa no passado? Essa é uma pergunta complexa e que exige uma resposta complexa, mas dela pode-se esboçar algumas anotações regadas a cerveja. Por exemplo, chamo aqui essa adaptação dos sentidos de processo evolutivo por dois motivos: a) trata-se de um processo porque pode-se atestar empiricamente que não se dá da noite para ou dia, levando (de acordo com uma série de necessidades) um determinado tempo para se concretizar; b) trata-se de uma evolução no sentido negativo-positivo, ou simples-complexo, levando-se em conta que esse seja o sentido recorrentemente encontrado em todo e qualquer aspecto da natureza.
Acreditando-se nesse dois pontos elimina-se por completo qualquer valor do patético argumento freqüentemente utilizado por aqueles se negam a despender esforço psíquico e cognitivo na compreensão através dos sentidos, de determinados objetos. Refiro-me (e aqui dou espaço a um inevitável sentimento de asco) exatamente à frases do seguinte naipe: "Música boa é aquela que você gosta de primeira... é ridículo ter que ouvi-la várias vezes pra gostar."
(Porra. Tal frase só pode ter saído de um hominídeo que teve muita sorte de chegar nesse nível de evolução biológica em que nos encontramos. Quero deixar claro também que trata-se de uma versão crua, mas claramente editada por mim, visto que tal criatura não saberia o princípio básico do uso da ênclise. Além disso, pode parecer que estou, aqui, gerando um evidente juízo de valor, onde "música boa" seria referente ao que chamo de evolução positiva ou que vai em sentido a uma complexidade. Isso não é totalmente verdade. Emito juízo de valor sim, mas não nessa ordem. Explicarei mais abaixo o que entendo por complexidade.)
Em outras palavras: assim como aprendemos a gostar do sabor de uma cerveja gelada, ou daquela salada que sua mãe insistia tanto pra você comer na infância, podemos aprender a apreciar sons que a princípio nos soam estranhos e alienígenas. Uma boa música pop é aquela que não exige tal aprendizado. Essa é a favorita do hominídeo sortudo. E conforme a complexidade da música aumenta, através de camadas e texturas sonoras ou através de uma descontextualização social e estranheza com a mesma, vai-se exigindo do ouvinte um melhor apuro dos órgãos responsáveis pela audição. E, pelo que me parece, trata-se de um apuro que se dá através de treinamento, repetição e por uma série de outros valores e significados que se expandem numa escala sócio-cultural.
Trato dessa questão também nesse âmbito sócio-cultural porque acredito que seja possível apreciar com mais eficácia uma determinada música por esta tratar-se do hino do seu time de coração; ou por estar a tocar num determinado e importante momento da sua vida que ficou marcado na memória.
Acredito também que essa evolução da nossa capacidade de apreciar sons complexos não pode, em hipótese nenhuma (exceto, talvez, por dano cerebral) involuir. Ou seja, quando sua capacidade cognitiva referente ao som se habitua a um determinado complexo sonoro, para sempre se estará preparado a compreendê-lo. E, repito, esse som complexo não precisa necessariamente ser um Stravinsky, mas um Babau do Pandeiro.
Agora, porém, fico com um pouco da musa que me fez começar esse post pobre e desconexo: Björk.

4 comentários:
A minha pergunta é: por que me torturar para vir a gostar de algo que não gosto?
Já escutei Björk diversas vezes e em todas fiquei com dor de cabeça.
Posso não achar que a banda Limão com Mel é a mais poética e maravilhosa do mundo, mas gostar do que Björk fez até hoje, nem na próxima encarnação.
Acho que aqueles que gostam de Limão com Mel e estão felizes assim, devem continuar ouvindo e não precisam vir a gostar de Chico Buarque nunca, por exemplo.
Você acha que ao evoluir todos deveriam gostar das mesmas coisas?
Concluindo: acho que você quer uniformizar as pessoas. Uma cultura de massa mais complexa. Em que todos seriam iguais a você, com o jeito Bruno Bob de ser. :P
Fui tão chata quanto eu gostaria de ser? kkkkk
Ah, Björk e seus grunhidos me tiram do sério.
:*****
Você acertou! O que eu quero é ver um bando de BOBinhos sendo produzidos em série, para que eu me sinta livre para dominar o mundo! Muuuhuhauhuhahauhahaaa!!!
É difícil uniformizar o gosto musical, mas neste sentido, eu prefiro me render à dialética, em que aponta-se de um lado um gosto, o q seria, teoricamente, uma tese. Rebate-se esse gosto, antitesimente, até que se chegasse a uma conclusão acerca do q se ouve.
Neste interim, seria mais coerente emitir juízo de valor ao invés de ouvir um som uma única vez e já valorá-lo.
Bjs,
Susan
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