Num determinado dia, em meados da década de 1980, eu estava fazendo cocô na casa da minha tia mais velha. Lembro que quatro coisas em particular me chamavam a atenção naquele banheiro. A primeira era o tamanho. Provavelmente era o maior banheiro que já havia visto até aquele momento da minha vida. A segunda era um par de halteres verdes que ficavam em um dos cantos do banheiro. Eu sei que eram verdes, mas quase não havia mais verde ali. A tinta estava quase toda descascada, dando vista ao metal enferrujado. Não lembro exatamente quanto pesava cada um dos halteres, mas lembro que na época eu mal conseguia erguê-los do chão. A terceira coisa era um escovão de banho. Eu tinha um pouco de nojo daquilo; ficava imaginando minha tia usando-o das formas mais impróprias. A quarta coisa que me chamava a atenção (e a raison d'être desse texto) era um adesivo circular colado na porta cinza que dizia "Crer é poder." Lembro que na época eu nunca entendi direito o que aquela frase tão direta e simplória queria dizer, e talvez seja precisamente por conta da minha ignorância que aquele adesivo me causara um verdadeiro fascínio (tanto que estou aqui escrevendo isso cerca de duas décadas depois de limpar a bunda lendo que ter fé confere poder).
Nota de meio de texto: Longe de mim acreditar que eu tenho condições de fazer uso nesse texto de palavras como "poder", "fé", "desejo", entre outras, considerando a vasta gama de significações que estas carregam hoje; significações estas que tão exemplares pensadores dedicaram suas vidas a desenvolvendo. Assim, reservo-me o direito de reduzi-las a seu uso corriqueiro, afinal, estamos na internet, num blog pessoal que ninguém nem lê. Estamos na minha arrogante e minúscula meta-narrativa.
Quando entramos no campo da religião do povo (não dos teólogos apreciadores do bom vinho e do cheiro de mofo), "crer", "acreditar", "ter fé" são conceitos que se misturam. Se pudermos crê-los sinônimos, afirmo sem medo: Crer, ou ter fé não tem absolutamente nada com poder, com conseguir. Nada mesmo. Eu queria poder até dizer que crer é o avesso de poder, mas algo em mim diz que esse seria um passo longo demais a ser dado, então me limito à máxima: Crer é poder não poder. Em outras palavras, ter fé é se dar o luxo de não conseguir; é viver com isso; é inverter o princípio que inicialmente motiva a própria crença. Elaboremos juntos essa idéia:
Se é difícil (ou, quem sabe, impossível) invalidar a fé enquanto conceito, podemos, pelo menos, colocá-la numa posição de embaraço. Vejamos: acreditar que crer é poder, que a fé de alguma forma leva a um resultado positivo e factual em relação às necessidades, desejos, anseios do fiel só pode levar a dois resultados: a) A uma espécie de implosão do universo, que viraria ao avesso, se auto-devoraria e, em seguida, defecaria uma quantidade considerável de anti-matéria; b) À idéia de que ter fé é, em princípio, egoísta.
Na alternativa a temos uma espécie de fim do mundo, juízo final, apocalipse, armageddon (ou a qualquer outro termo bíblico análogo e hollywoodianamente engraçado). Esse fim do mundo aconteceria quando levamos em conta a seguinte lógica: Digamos que uma pessoa tenha fé e, por ter fé, consegue tudo o que quer. Uma outra pessoa (seu vizinho, talvez) tem fé na mesma intensidade que a primeira pessoa e por um acaso do destino, deseja exatamente a mesma coisa que seu rival de fé. O que acontece? Provavelmente os dois se desmaterializariam sugados por um mini-buraco-negro que, de súbito, surgira em suas axilas esquerdas. Agora, pensemos agora numa escala global: todas as pessoas tendo fé igualmente. Aquilo que seria o sonho molhado de qualquer beata, transformar-se-ia no seu maior pesadelo. Vivemos num planeta que não possui matéria prima e humana (no caso dos desejos impróprios) suficientes para que todos os seis bilhões de habitantes possam ter fé e, em conseqüência dessa fé, realizar seus sonhos. Se todos realmente acreditassem (e se crer realmente fosse poder), o mundo se esgotaria e comeria a si mesmo. Bum. Blargh. Flush.
Mas calma! Caaaalma! Não precisa correr para as colinas... Ainda podemos ter esperança. Se crer realmente for poder, ainda podemos evitar o fim do mundo. Para tal, é necessário apenas que optemos pela alternativa b já citada. Em outras palavras, temos que torcer para que a maioria das pessoas do mundo não tenham fé; torcer para que apenas nós possamos realmente crer e poder! e, conseguinte, poderemos realizar nossos sonhos. Sendo assim, da próxima vez que for à missa, lembre de colocar aquela gota de cicuta no vinho do padre. Um padre a menos, menos fé no mundo, mais chance de você realizar seus desejos, mais matéria prima e humana para saciar as necessidades da carne.
O grande problema é que se essa alternativa b procedesse, o dinheiro sempre estaria nas mãos dos fiéis, nunca nas mãos da igreja. Por isso, sou obrigado a retornar ao terceiro parágrafo, onde observei que crer é poder não poder.
Só me resta ter fé que ter fé, na verdade, lhe permite não realizar seus desejos de uma forma mais (in)digna. Só me resta acreditar que crer não lhe confere nenhum tipo de poder, mas lhe permite olhar pra frente e viver pensando que você acredita em alguma coisa, quando na verdade você já não acredita mais nem em si mesmo. Lhe permite colar um adesivo circular na porta do banheiro e todo dia, antes do banho matinal, olhar para ele esperando extrair alguma força dali.
Se eu soubesse disso na época em que fazia cocô tentando levantar halteres pesados demais para mim, teria limpado a bunda com o adesivo da minha tia até não conseguir ler mais que crer é poder.
terça-feira, 18 de novembro de 2008
Ter fé é egoísmo (ou o fim do mundo).
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Bruno O. Barros
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quarta-feira, 12 de novembro de 2008
Clipe de "Mapa Astral" de Daniel, O Invisível.
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Bruno O. Barros
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domingo, 24 de agosto de 2008
Na casca do ovo agora é .com.br.
Como dizem os noruegueses, há, sempre, caça pra caçar se caçadores formos. Sendo assim, ponho-me a acreditar no potencial das tirinhas Na casca do ovo, que já não publico mais nesse blog nem no blog que eu havia criado para publicá-las porque dei um passo adiante e comprei-lhes hospedagem e domínio .com.br, artigos de luxo numa internet cada vez mais particionada em grandes blocos, orkuts, facebooks, myspaces, blogspots, youtubes, etc. Espero que dê certo. Eu farei minha parte, se não der certo eu te odeio. Sério.
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Bruno O. Barros
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2:05 PM
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segunda-feira, 4 de agosto de 2008
O duplo.
"Só um double mesmo," respondi. Referia-me, claro, ao adjetivo duplicador da quantidade de carne no sanduíche. "O double está em falta, senhor," replicou aquele que em pouco tempo tornar-se-á o antagonista dessa história. "Não tem mais?", perguntei mais para mim mesmo que para a pessoa de boné. "Como eu disse, senhor, está em falta." "Em falta como?" "Senhor, hoje não temos mais como servir o double." O atento leitor certamente deve (se é que é possível atribuir-se certeza e em seguida fazer-se uso do verbo dever enquanto referente à dúvida) ter notado o malicioso uso da palavra senhor por parte do caixa da lanchonete. Caso algo de maior importância tenha-me roubado vossa digníssima atenção (se é que um dia esta me pertenceu), coloco-me na posição de fornecedor de uma explicação curta, mas segura. Sendo assim, caso o leitor já saiba o mínimo denominador comum das minhas suspeitas, sugiro que pule as próximos 1.450 caracteres, já que não posso tratar aqui em termos de parágrafos ou mesmo linhas (visto a minha dependência vergonhosa da distribuição espacial aparentemente arbitrária do processador de texto que governa esse blog). No entanto, antes de tratarmos do uso maquiavélico da palavra senhor, quero deixar claro que o número de caracteres citado logo acima é preciso, acurado e inclui, inclusive, o espaço após o último dígito. Dito isso, voltemos à malícia do caixa: Na primeira frase proferida pelo funcionário da lanchonete nesse texto, este posicionou a palavra senhor no terminal da frase; e nas frases subseqüentes essa mesma palavra foi empurrada (sem qualquer tipo de consideração) para uma posição mesial e primeira. Trata-se de uma transposição que revela um crescente nível de impaciência e, ao mesmo tempo, busca (num nível inconsciente) submeter aquele a que se dirige as assertivas a uma condição sub-humana, a um papel de servo, de mero criado no qual um cuspe na cara seria muito pouco se nivelado às coisas que tal abominação mereceria. Assim, por crer na alta educação do leitor, estou certo de que a cólera que de súbito erupcionou da minha garganta lhe soará totalmente justificada. Na frase a seguir estarei, portanto, dando continuidade à narrativa interrompida com o intuito de denunciar o caráter demoníaco do caixa que me negou o double; sendo assim, a contagem de caracteres (sem levar em conta o ponto final a seguir) terminar agora. "Vai tomar no cu, seu filho da puta do caralho!", gritei esbofeteando-lhe a face. Por algum motivo, aquilo gerou uma certa comoção entre alguns clientes da loja. É em momentos assim que me lembro do quão falso-moralista é o mundo. Pelo menos ninguém tentou me segurar e, por dever cívico, continuei: "Seu corno nojento, trate de preparar o meu double!" "Mas não tem, senhor...", respondeu baixinho a abominação que, de certo, defecara-se de medo (e é isso que aqueles que sabem que estão errado fazem: defecam-se no interior das próprias calças). "Não me chame de senhor, porra! NÃO ME CHAME DE SENHOR!", disse apontando-lhe na face. Acho que os sons gerados nesse tipo de situação chamou a atenção do superior daquele caixa e, de repente, um rapaz e seu crachá de gerência se aproximaram. "Senhor, posso saber o que está acontecendo?" Por ter uma boa educação, eu sabia que não deveria descontar meu ódio em alguém que acabara de se introduzir na discussão (e, possivelmente, com boas intenções). "Esse infeliz demoníaco, essa criatura rastejante, esse pigmeu leproso acabou de me negar um double por estar em falta!" "Calma, senhor, sugiro que se sente para conversarmos." O homem-crachá estava a um passo de colocar-se numa situação que - estou certo - não desejaria estar. "Não vou sentar e não estou nervoso e não me chame de senhor e me dê meu double agora. Não tem como estar em falta um sanduíche cuja única diferença de um outro mais simples é a adição de uma carne extra. Isso não existe! É só colocar uma carne a mais e voilá, temos o meu double." Ah, confesso que nesse momento fui muito mais solícito, paciente e doce do que costumo ser. Praticamente entreguei a chave da sabedoria para o inimigo, o perdão para o profano, a paz para guerra. "Olha, não é tão simples quanto parece, senhor..." Pois é. O crachá teve a ousadia de desferir-me um golpe logo após ter como oferta a paixão divina. Por ser humano, não me contive. "JUDAS! QUEIME AGORA!", gritei projetando meu cotovelo contra seu pomo-de-adão, golpe este que aparentemente o fez perder a consciência (se é que o infeliz crachá algum dia teve alguma). Mas, como todos sabemos, o mundo é injusto e por ser um só não resisti à força física da massa falaciosa que nos rege. Em segundos me imobilizaram e me golpearam. Na delegacia conversei com o delegado, mas este não parecia muito interessado na temática da minha narrativa e logo me liberou. Assim que cheguei em casa peguei o telefone e pedi: "Só um double mesmo."
Fonte de inspiração: Astronomy Picture of the Day, 21/07/08
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Bruno O. Barros
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terça-feira, 29 de julho de 2008
Enquanto isso, no Orkut...
...a conveniência premonitória rola solta:
Sorte de hoje: Se seus desejos não forem extravagantes, eles serão realizados.
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Bruno O. Barros
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domingo, 13 de julho de 2008
Novo blog exclusivo para as cascas dos ovos!
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Visitem o blog exclusivo e recém-criado onde estarei publicando as tirinhas da série "na casca do ovo". O endereço é nacascadoovo.blogspot.com.
Aproveite e faça parte da comunidade do orkut.
Bom... num próximo post entro nos detalhes por trás dessas tiras.
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Bruno O. Barros
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quarta-feira, 28 de maio de 2008
O sino da liberdade.
"Foi normal, nada demais," ele respondeu. Eu tinha-lhe perguntado quais foram suas impressões a respeito do seu primeiro dia de malhação numa simpática academia que abrira há seis meses na rua de trás. "Conheceu alguém interessante?", perguntei tentando esconder a insegurança. "Tinha um rapaz lá muito boa gente." Aliviada por seu interesse não ter sido investido em alguém do sexo oposto, continuei: "Será que eu conheço?" A pergunta faz sentido já que, conforme dei a entender no início do parágrafo, a academia localiza-se bem perto de onde moro. "Talvez, é um bem grandão. Ele é profissional." Pensei um pouco e não pude lembrar de ninguém, "Halterofilista?" "Isso." "Hum, não conheço. Deve morar em outro bairro." "Ele vai participar do seu primeiro campeonato profissional em Agosto." "Não acho bonito esses homens muito musculosos." "A questão não é essa, o legal é a determinação por trás dos músculos." "Nem venha querer ficar grandão assim." "Tá doida?, mal tenho coragem de malhar pra perder peso, imagine então pra ficar do tamanho de Hermes," ele disse me passando a panela molhada. Puxei o pano de prato e pus-me a enxugá-la. "O que leva alguém a querer ficar tão musculoso nos dias de hoje onde esforço físico é a menor das nossas demandas?" "Além de querer se enquadrar num padrão de beleza pré-estabelecido?" "É, além disso." "No caso de Hermes foi uma promessa." "Promessa?", virei interessada. "Ele prometeu para o pai no seu leito de morte," disse enquanto passava a esponja na frigideira enegrecida de ovo. "Prometeu que ia ser halterofilista?" "É." "Sério?" "Sério." "Do nada?" "O mais engraçado é que foi do nada mesmo. O pai dele nunca, em momento nenhum da vida, expressou qualquer indício de que apreciasse esse negócio de culto ao corpo." "E perto da morte ele pediu para que o filho fosse halterofilista?" Ele me passou a frigideira, "Na verdade ele disse fisiculturista, parece que tem uma diferença. Foram as últimas palavras dele." "Será que esse Hermes não pensou na possibilidade do pai estar delirando nos seus momentos finais?" "Ah, deve ter pensando... mas quando se trata das últimas palavras do seu pai a gente não pode se sustentar em conjecturas." Enxuguei dois copos, virei sorrindo e perguntei, "Então, se tivesse sido seu pai, você faria a mesma coisa?" "Sem sombra de dúvida." Fiquei calada por uns instantes. É engraçado como a morte ou a proximidade dela nos confere um poder quase divino sobre os outros. Quando somos atores ativos conseguimos o que queremos de quem quer que seja por via do medo da própria morte; quando somos atores passivos o poder se estende por aqueles nos ama e pelos que sentem compaixão por via da pena e da nossa capacidade de nos projetar no outro. "Isso pode ser ruim pra você, Glauber." "O quê?" "Pensar assim." "Assim como?" "Assim. Nesse negócio de achar que devemos fazer tudo o que nos pedem os entes queridos em seus leitos de morte." "Eu acho que isso é uma forma de conceder ao moribundo um último desejo; e que seja algo significativo, então." "Pois é, e você acha que ser halterofilista é significativo?" "Ah, mas quem somos nós pra julgar isso?" Senti uma coceira de irritação na garganta. "Se, em seu leito de morte, seu pai pedisse que você me deixasse, você faria isso?" Ele nem olhou pra mim. "Não seja ridícula, meu pai te adora." "Do mesmo modo que o pai de Hermes mal sabia o que era halterofilismo." "Fisiculturismo." "Que seja. Me responda." "Não quero responder isso, Helen. Que coisa boba." "Boba vírgula. A resposta para essa pergunta tem o papel de sustentar, ou não, os alicerces do nosso relacionamento." "Cacete, você vai longe, hein?" "Não fuja da resposta, Glauber." "Tá, pô. Eu te deixaria, pronto, satisfeita?" "Como é? Você me deixaria se seu pai pedisse isso no leito de morte dele?" "Deixaria. Que besteira." "Glauber, não me tire do sério! Quer dizer que se seu pai pedisse para você fazer sexo com nove prostitutas asiáticas ao mesmo tempo você faria?" "Se ele estivesse morrendo?" "Claro, a conversa toda é sobre isso!" "Nove é muito, não sei se agüentaria," o filho da puta respondeu rindo. "Viado do caralho!", gritei atirando o copo contra o chão. "Helen! Que é isso? Calma!" "Calma uma porra, viado! Quer dizer que se seu pai pedisse pra você chupar os testículos de dois bodes ao mesmo tempo, você chuparia?" "Você pirou." "Você preferia as nove putas asiáticas ou os ovos dos bodes?" "As nove putas, eu acho..." "Safado!" "Calma." Depois da briga fui para a casa da minha mãe. Dormi por quatro dias lá. Glauber não telefonou uma única vez. Quando voltei ele não estava em casa, mas os vizinhos avisaram que ele teve que fazer uma viagem urgente para o interior; disseram que o pai dele estava muito mal e sua mãe havia ligado para que ele fosse ver o pai antes que o pior acontecesse. Rezei para que o velho morresse antes que pudesse falar com o filho.
Fonte de inspiração: Astronomy Picture of the Day, 06/05/99
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Bruno O. Barros
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terça-feira, 27 de maio de 2008
Na Base #05.
Morrissey é o The Smiths. Minto, Morrissey é muito mais que o The Smiths e a sua carreira solo prova isso. Abaixo, Morrissey e toda sua intensidade performática no palco:
Morrissey
"First of the Gang to Die"
You have never been in love,
Until you've seen the stars,
reflect in the resevoirs
And you have never been in love,
Until you've seen the dawn rise,
behind the home for the blind
We are the pretty petty thieves,
And you're standing on our street..
...where Hector was the first of the gang
with a gun in his hand
and the first to do time
the first of the gang to die. Oh my.
You have never been in love,
Until you've seen the sunlight thrown
over smashed human bones
We are the pretty petty thieves,
And you're standing on our street..
...where Hector was the first of the gang
with a gun in his hand
and the first to do time
the first of the gang to die. Such a silly boy.
Hector was the first of the gang
with a gun in his hand
and a bullet in his gullet
and the first lost lad to go under the sod.
And he stole from the rich and the poor
and the not-very-rich and the very poor
and he stole all hearts away
he stole all hearts away
he stole all hearts away
he stole all hearts away
Relembre os "Na Base" anteriores: 01 (Bright Eyes, Lua), 02 (Thom Yorke, The Clocks), 03 (Magic Numbers, I See You, You See Me), 04 (The Beach Boys, Wouldn't It Be Nice & Brian Wilson, Heroes and Villains).
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Bruno O. Barros
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segunda-feira, 26 de maio de 2008
Na tela de prata.
Nos deitamos na rede e ficamos olhando as estrelas. Em muitos momentos da vida nossos gestos não passam de imitações patéticas daquilo que assistimos no cinema ou na TV. Gostamos de simular aquela realidade, de trazer um pouco de sonho para o que convencionamos chamar de mundo real. Foi por esse motivo, acredito, que nos deitamos na rede e ficamos olhando as estrelas naquela noite de primavera. Não falamos nada um para o outro, embora pudéssemos simplesmente dizer algo como, "Estamos fazendo igualzinho a como se faz no cinema;" "É mesmo, pensei a mesma coisa," responderia ela antes de me beijar com paixão. Mas não. O silêncio nesses casos, nesses momentos em que maquiamos nosso entorno de forma tão consciente, é o laço invisível que dá unidade à cena. Assim como os melhores atores mantêm-se impassíveis a quaisquer desordem fora da cena em que vivem naquele momento, devemos sempre observar as estrelas em silêncio. É lindo. "Eu passei a noite com Hélio ontem," disse-me ela de súbito. Virei rápido, "Como assim?" "Fiz sexo com ele." "Que caralho é isso?", gritei empurrando-a. "Desculpa falar assim do nada. Achei que fosse melhor do que enrolar." "Porra, é sério mesmo?" "Eu não brincaria com uma coisa dessa, mas fique calmo, eu explico." "Explicar o que, cacete!?" Ela ficou calada. "Por quê?", insisti. "Por que, o quê?" "A gente tinha acabado de voltar, eu não mereço isso." "Não é questão de merecer, Sávio. Eu errei, seu irmão errou também." "Piranha!" Ela não respondeu. Fiquei sem saber o que pensar direito. Pipocou-me na cabeça um desejo incontrolável de quebrar pratos e chorar. Coloquei a mão no rosto como se segurasse a parte superior do nariz: o polegar no canto externo do olho esquerdo e o dedo indicador no outro, e último, olho. "Vagabunda do cacete!", gritei mais forte projetando a mão em sua direção como se meus dedos pudessem projetar adagas venenosas contra a sua jugular. "Não precisa exagerar," ela teve a coragem de dizer. "Exagerar?, exagerar?, porra! Enlouqueceu? Você tinha jurado que não ia mais me enganar." "Eu não te enganei, Sávio. Estou cumprindo minha promessa. Contei tudo pra você. Só não contei antes por falta de oportunidade." "Oportunidade pra trepar com ele você teve, né?" Ela fez uma cara de lá-vamos-nós-de-novo e voltou para a rede. Discutimos por duas horas e quarenta. Ela sabia que não havia nenhuma desculpa respeitável para o que fizera na noite anterior, mas mostrou-se verdadeiramente arrependida. Pude ter certeza disso quando ela chorou. Cheguei a sentir uma quantidade razoável de lágrimas pingar na minha perna. Nos abraçamos e como bom cristão concedi-lhe pela terceira vez a graça do perdão. Amores verdadeiros não devem acabar assim, mas sim sob esse belíssimo teto estrelado que, novamente, se exibe para nós. Como nos filmes.
Fonte de inspiração: Astronomy Picture of the Day, 27/12/07
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Bruno O. Barros
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domingo, 25 de maio de 2008
Ivan Gusttavo, pintor.
"Ivan Gustavo?" "É. Não gostou?" "Não é bem isso," menti, "é que é meio diferente." "É, e eu coloquei os dois tês para diferenciar ainda mais." "Dois tês?" "Em Gusttavo." "Ah, é Gusttavo?" "Isso, com dois tês." "Sei..." Baixei a cabeça e olhei mais um pouco para aquela pessoinha tão tão tão pequena mas já portadora de um fardo dos mais pesados. Li recentemente nas últimas páginas de um livro que o nome da gente é a única coisa que temos certeza de que será eterna. Se desconsiderarmos a (remota) possibilidade dos cartórios um dia serem extintos das regras que regem a nossa dinâmica social e pensarmos um pouco nessa imortalidade do nome próprio chegamos num terreno onde eu poderia, com absoluta tranqüilidade, agredir fisicamente aquele homem ao meu lado. Seria uma espécie de vingança antecipada à vida asquerosa que ele acabara de presentear ao seu filho. "É que meu pai gostava muito de Van Gogh," ele disse aparentemente ao acaso enquanto eu pensava em socá-lo com força no seu pomo-de-adão, fazendo-lhe engasgar com a própria tireóide. "E o que tem a ver?", perguntei. "Ivan Gusttavo, Van Gogh, não entendeu?" "O nome Ivan Gusttavo é pra ser uma referência a Van Gogh?" "Claro, pô. São bem parecidos." "Os nomes não têm absolutamente nada a ver." "Como não? As iniciais são as mesmas e se você falar rápido parece até o mesmo nome." "Claro que não parece! E porque diabos você não chamou ele de Van Gogh? Ou até mesmo de Vincente." "Vincente? Nada a ver do caralho." Consegui ficar ainda mais puto. Ele balançou a cabeça de leve e olhando para o lado disse, "Fiquei com medo da professora não saber pronunciar o nome direito e chamar ele de Van Goge, tipo como se fosse um jota. As crianças sofrem a vida toda com esse tipo de coisa." E ele pensa que Ivan Gusttavo o faria sofrer menos? Imbecil. "Olha," eu disse, "só acho que você devia ter feito alguma pesquisa antes. Também acho que nome é uma coisa importante. Ivan Gusttavo não passa de uma má adaptação de dois nomes típicos do norte da Ásia." "Eu sabia que você tinha odiado. Porque não falou logo?" "Não é que eu não gostei, cara. É que é muito feio!" "Dá no mesmo, caralho," ele disse antes de bater a porta. Do lado de dentro, ainda gritei, "Você matou o menino!" O barulho fez com que a pequenina caricatura soviética de Van Gogh acordasse. Tentei sorrir, mas não deu. Apoiei os cotovelos no berço e encarei seus olhos que, em retorno, pareciam suplicarem-me por ajuda. Então, como se fosse um membro daquelas famílias que se envergonham por ficar na dúvida entre desligar ou deixar ligado os aparelhos que garantem a sub-vida de um parente que convalesce na cama de algum hospital particular, pensei brevemente em furar os olhinhos de Ivan Gusttavo usando meus dois polegares. Fundo o suficiente para fazê-lo parar de respirar. Seria uma forma de salvá-lo da vida medíocre em que teria dali em diante. Levei minhas mão até o seu rosto, alisei suas sobrancelhas, sorri amarelo e disse, "Oi, Ivan, sou eu, tio Edésio." Vinte anos depois Ivan nos chamou para sua primeira exposição. Não foi ruim.
Fonte de inspiração: Astronomy Picture of the Day, 23/05/08
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Bruno O. Barros
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Extremamente belo.
Jonathan Safran Foer é só 5 anos mais velho que eu e já conseguiu fazer aquilo que provavelmente passarei minha vida inteira tentando: contar uma boa história. Minto, contar uma história inesquecível. Eterna.
Hoje terminei de ler "Extremamente alto & incrivelmente perto", o segundo livro de Foer. Recomendo de coração para qualquer pessoa com o mínimo de gosto por uma literatura de trejeitos contemporâneos e sabor de clássico.
Não vou resenhar o livro, mas recomendo textos de quem o fez: 01, 02 e 03.
"Extremamente alto & incrivelmente perto" vale cada centavo.
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Bruno O. Barros
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1:14 AM
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quinta-feira, 22 de maio de 2008
Universo-bolha.
Quando eu voltei para a sala as luzes já haviam sido apagadas e os trailers iniciados. Subi às cegas os degraus que a companhia detentora da maioria das ações daquela empresa que um dia vendera empadas e hoje projeta filmes haviam me colocado como obstáculo e, chegando na fileira onde, há pouco, legitimamente conseguira um assento, surpreendi-me ao vê-lo ocupado por nádegas que não eram minhas. "Com licença, mas esse lugar é meu", disse às nádegas. "Como assim? Você chegou agora." "Não, não, veja bem, eu saí pra comprar aperitivos, mas eu já havia me sentado nesse assento antes." "E cadê os tais aperitivos?", perguntou com um tom de desafio e de zombaria (talvez pela minha escolha de palavras) e, como resposta, puxei um Snickers do bolso. "Não como pipoca." "Tá, mas veja o meu lado, eu cheguei aqui e o local estava vazio." "Eu entendo, não precisa se desculpar." Ele ficou uns instantes em silêncio e disse meio rindo que não estava se desculpando. "Olha, não falta muito para que o filme comece, eu queria muito o meu lugar de volta." "O lugar não é seu, companheiro. Porque não senta ali do lado? O cinema nem está tão cheio. Ali está ótimo pra assistir também." "Em primeiro lugar, não sou seu companheiro, em segundo, porque não senta você em outro lugar? Esse daí é meu." "Prove." No exato momento em que ele falou isso tudo escureceu. Preto absoluto. Por um instante pensei ter cegado e senti um gosto quente subir até a garganta, mas não, na verdade tratava-se daqueles instantes de escuro e silêncio que preenchem o espaço temporal entre os trailers e o filme pelo qual, na maioria dos casos, pagamos o ingresso. "O filme começou." "É, e você está me atrapalhando." "Eu vou chamar o segurança se você não sair do meu lugar." Nesse momento algumas pessoas começaram a reclamar tanto do fato de eu estar em pé quanto do de estar, de certa forma, falando alto durante o filme. "Pode chamar, babaca." Quem falou isso não foram as nádegas larápias, mas um bem apessoado par de seios do seu lado. "E você quem é?" "Minha namorada", respondeu antes as nádegas e completou com "agora vê se pára de encher o saco, não vamos sair daqui só porque você disse que tinha achado esse lugar antes." De súbito, tudo ficou claro. "Olha," disse, "eu sei que não é tarefa fácil submetermo-nos a uma ordem como a que estou a lhe impor estando acompanhado de alguém do sexo oposto. Como possível homem que és, efetuar tal troca seria um fardo duplo. De um lado, sujeitar-se-ias à posição de inferior sob outro alguém do mesmo sexo diante da sua fêmea, e do outro lado terias ainda que caçar, curvado diante do olhar zombeteiro da audiência presente, por outros dois lugares vagos onde poderiam depositar, em paz, suas nádegas e seios. Sendo assim, por ser uma pessoa de coração justo e ciente da delicada posição em que te encontras, cedo-lhe minha vaga." As nádegas e os seios ficaram alguns instantes apenas olhando para mim com uma expressão que, ao meu ver, designava confusão. Por fim, as nádegas me perguntaram: "Porque você falou agora como se estivesse num livro?" "Porque é difícil me enganar o tempo todo. O que te faz crer que não estamos em um?" Ele não respondeu. Caminhei em direção ao assento vago mais próximo e até chegar lá pude ouvir, dentro de mim, os aplausos de todos os presentes. Eram gritos ovação e louvor. Ah, o auto-conhecimento...
Fonte de inspiração: Astronomy Picture of the Day, 07/11/05
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Bruno O. Barros
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quarta-feira, 21 de maio de 2008
Nebula negra.

"Sabia que a soma de todo o tempo que passamos dormindo equivale a um terço da nossa vida?", ela me perguntou. Não falei nada na hora, só olhei e sorri, não valia a pena comentar o quanto eu achava imbecil esse tipo de informação, ou pior, o quanto eu sinto desprezo por quem sai repetindo essas bobagens só porque em alguma noite mal dormida ligou no Discovery Channel e viu algum pseudo-documentário que, por completa falta de competência intelectual do autor, trouxe tamanha bobagem como dado. É, fiquei calado, não queria deixar que aquela irritação invasora me tomasse o momento de glória, afinal, estávamos juntos novamente, acabáramos de reatar laços partidos a lágrimas. Por um lado, diante do perdão que fora-me concedido havia pouco, não custar-me-ia tanto calar após a verbalização do factóide idiota; por outro, minha cabeça borbulhava de respostas a dar-lhe - a maioria delas grosseira, admito. Olhei para ela e, talvez por causa do brilho no seu olhar, achei que o silêncio ficou incômodo. Ela devia estar esperando uma resposta, algum simulacro de surpresa ou - pior - algo inteligente. Sorri amarelo. Eu poderia, ali mesmo, presenteá-la com a resposta que seus olhos frajolas pareciam me pedir. Sim, eu poderia dizer "É mesmo, princesa? Onde você viu isso? Nossa, esse documentário parece bem legal, hein? Poxa, um terço é muito, hein? Que desperdício, não?", ou algo com o mesmo efeito. Desse modo eu lhe concederia aquela sensação que temos quando sabemos que acabamos de falar algo esperto. Quem sabe até, diante desse meu ato de ternura e caridade, ela viesse a me oferecer um bônus: não só estaríamos juntos de novo como passaríamos a noite fazendo amor. No entanto, olhando por outro lado, dar-lhe tal resposta faria de mim uma paródia, uma cópia tosca de mim mesmo. Seria como misturar minhas fezes num copo com leite, depositar seu conteúdo dentro da minha boca e nunca engolir. Passar a vida com aquela mistura indigesta descansando entre minha língua e meu palato. Não, eu não poderia me sujeitar a tamanha baixaria. Por isso, olhei pra ela e comecei: "Olha, eu tenho tanta coisa pra te dizer agora que po--" Então tudo ficou preto. Foi assim que tive o meu primeiro derrame.
Fonte de inspiração: Astronomy Picture of the Day, 22/03/08
Escrito por
Bruno O. Barros
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3:46 AM
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segunda-feira, 19 de maio de 2008
Daniel, O Invisível: "Hoje" [comentada]
Hoje comento mais uma música de Daniel, O Invisível. "Hoje", ninguém sabe, foi feita tendo como base a melodia de "Sem Fantasia" de Chico Buarque. Passei meses completamente aficionado pelo clima depressivo e misterioso dessa música que, na minha opinião, está no TOP 5 do Chico. Escrever "Hoje" foi uma forma de me livrar desse vício que, suspeito, por pouco não me fez mal. Em "Hoje" busquei produzir a mesma atmosfera sufocante de "Sem Fantasia" e até alguns acordes são iguais.
Através da letra me afastei da temática de "Sem Fantasia" (que aborda o término de uma relação entre um rapaz e uma mulher bem mais velha), aproximando-me de um assunto ainda mais etéreo e inexplicável: o sonho.
"Hoje" tem início com uma inversão temporal do falar: "Ontem te vi amanhã com medo de estar querendo perder a mim - que hoje estou buscando evitar tal amanhecer sombrio que espera por nós." Esse primeiro verso (que, sozinho, toma 1/3 da música) descreve um pesadelo que, no ponto de vista daquele que sonhou, tem características premonitórias.
O egoísmo e a insegurança do nosso personagem central se revela nos próximos versos. Trata-se de uma onda crescente de pensamentos que, acompanhados de uma sonoridade cada vez mais empilhada em camadas, findam em ofensas dirigidas à amada (que, possivelmente, uma hora dessas já nem se encontra mais no local).
Clique "play" para ouvir.
"Hoje"
Bruno Barros
Ontem
te vi amanhã
com medo de estar
querendo perder
a mim
que hoje estou
buscando evitar
tal amanhecer
sombrio
que espera por nós...
Quem iria imaginar
te ver livre a pensar
em ver a mim largado enfim?
Pois só assim para findar no
hoje
e organizar
o medo de pensar no medo
de tê-la roubada,
bandida!
Falada,
caída!
Perdida na vida...
Se quiser, compare as duas músicas.
Site Oficial: danieloinvisivel.com
MySpace: myspace.com/danieloinvisivel
Escrito por
Bruno O. Barros
às
9:08 PM
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segunda-feira, 28 de abril de 2008
H no início.
"Qual a sua cor predileta?" "Azul," respondeu firme. "Você sabia que azul é a cor favorita da maioria das pessoas?" "Mesmo?" "Mesmo." "Onde você viu isso?" "Não lembro, mas não importa... acho que faz sentido. Tudo o que não podemos ter é azul." "Tipo a calcinha daquela menina?" "Tipo o céu o mar." Ele não contestou. Dei outra mordida na coxinha de galinha e suguei um pouco de refrigerante de cola light pelo canudo branco com listras vermelhas verticais. Cerca de dez minutos depois eu estava sozinho sentado num banco da praça que fica em frente ao escritório só esperando o tempo passar, se é que podemos colocar as coisas nesses termos, já que deixar de passar nunca foi uma característica do tempo. Uma mulher de meia idade muito bem apessoada se aproximou como se fosse perguntar alguma coisa, mas apenas sentou-se ao meu lado e puxou um celular de uma bolseta arroseada. Em seguida, digitou uns números. "Oi? Sou eu. É, estou sabendo, e agora?" Enquanto ela falava, eu não conseguia tirar os olhos dos seus peitos. Eram extremamente bem formados e convidativos. Fiquei pensando, eu poderia muito bem arrancar-lhe o telefone, dizer cala a boca e encher aqueles peitos de beijos molhados enquanto friccionava meu púbis em suas ancas, mas optei por não externizar a idéia. Mas antes mesmo que eu conseguisse espanar a sujeira dos meus pensamentos, a mulher desligou o telefone e, sem olhar para mim, mas certamente para mim, perguntou: "É inacreditável, né?" "O quê, exatamente?", perguntei um pouco temeroso. "Você não ficou sabendo do novo pecado capital?" "O de ser rico?" "Isso." "Vi na internet hoje cedo." "A Igreja é muito ipócrita. Logo quem, o Vaticano... que moral eles têm para dizer que é pecado juntar dinheiro?" "Na verdade o pecado é juntar muito dinheiro. Pelo menos foi o que eu li." "Você é cristão, né?" Fiquei meio puto, mas respondi. "Ainda bem," ela disse, "eu acho todo cristão ipócrita." "Olha, desculpa, mas hipócrita tem h." "Como é?" "Hipócrita se escreve com h no início." Ela pareceu não entender e, virando o rosto para a esquerda, riu de leve. Aproveitei para olhar um pouco mais para o seu par de peitos. "Olha, tenho que ir." "Fique mais um pouco," pedi, embora a sua presença de certa forma me irritasse. "Estão me esperando no escritório." "Qual o seu nome?" "Michele, e o seu?" "Sávio." "Sávio," ela disse enquanto abria a bolsa, "pegue esse dinheiro e, por Deus, gaste!" Fiquei meio confuso, mas aceitei as duas notas de vinte reais. Antes que ela virasse dei-lhe um abraço e dois beijos no rosto. Ela corou, virou e se foi. Andei até o trailer da esquina e pedi "mais uma coxinha, por for favor."
Fonte de inspiração: Astronomy Picture of the Day, 28/04/08
Escrito por
Bruno O. Barros
às
12:17 AM
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domingo, 27 de abril de 2008
Estruturas incomuns no centro da nossa galáxia.
Só faltava mesmo a recorrente febre para fazer do nosso personagem uma paródia grotesca dos anti-heróis do realismo russo. Sim, o peso da pergunta resultou numa livresca pausa dostoievskiana. E, se bem recorda-se, ela perguntou "e você?", e mesmo que por si só pequenina sentença não detenha toda a carga dramática prometida por quem agora vos escreve, ao tomarmos conhecimento do conteúdo da conversa posterior à sintética interrogação, tudo se clareia. Sem rodeios, pois disso vivem apenas aqueles que não sabem onde querem chegar: ela, antes de fazer tal pergunta, falava dos seus sentimentos pelo quase febril Pedro Servil. Se tivesse sido fácil declarar a reciprocidade desejada por ela, Pedro assim o faria. Na verdade, mesmo se fosse difícil, Pedro não demoraria para presenteá-la com o esperado "eu também". No entanto, não era fácil, tampouco difícil. Era - na verdade - impossível. Não havia, em Pedro, qualquer tipo de fragmento de sentimento mesmo que somente superficialmente similar àquilo que brotava a jorros do peito daquela que o amava. Sendo assim, depois da supracitada pausa, Pedro disse apenas: "que horas são mesmo?", "Onze e doze.", "Já? Preciso ir... fiquei de encontrar o pessoal pra almoçar no Antônio's.", "Tá...", "Beijo.", "Beijo." E assim Pedro beijou-lhe apaixonadamente os lábios enquanto, com a mão esquerda, apertava-lhe a cintura.
Fonte de inspiração: Astronomy Picture of the Day, 27/04/08
Escrito por
Bruno O. Barros
às
4:25 AM
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quarta-feira, 2 de abril de 2008
sexta-feira, 28 de março de 2008
Outro objeto (igual) cai do céu, pode ser um dos testículos de Optimus Prime.
Hoje, três dias depois de um objeto não-identificado ter caído no interior de Goiás, um outro objeto (bastante similar ao primeiro) caiu na Austrália.
Segundo as notícias, se tais objetos forem lixos espaciais (possibilidade menos assustadora) oriundos de um mesmo equipamento, o mistério seria o porquê desse intervalo de 3 dias entre as quedas.
Eu, sinceramente, acho que Optimus Prime resolveu converter-se ao estatuto de eunuco.
Globo.com (1)
Globo.com (2)
EPTV.com
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Bruno O. Barros
às
9:17 AM
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terça-feira, 25 de março de 2008
Esfera cai do céu, ninguém sabe o que é.
Uma sinistra esfera metálica de origem desconhecida caiu em Goiás hoje. Assim como é típico do ser humano médio, sinto um delicioso formigamento diante de fatos misteriosos como esse. A criatividade vai aos céus. Pena que em pouco tempo alguém arranjará uma explicação para o fato.
Ao ver essa notícia, quem já assistiu Donnie Darko logo vai lembrar da turbina sem avião que mata o protagonista que dá nome ao filme. Na verdade, a turbina o "mata" (com aspas) e não só o "mata" como gera um revertério no espaço-tempo, que entraria em processo de loop eterno caso Donnie não aceitasse o seu destino e o fim do mundo; do seu mundo.
Quem será o Donnie Darko goiano que "escapou" da misteriosa esfera? Será que o Donnie caipira vai aceitar o fim do seu mundo? Estamos todos a sua mercê.
Fontes:
Globo.com
UOL
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Bruno O. Barros
às
12:52 AM
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quarta-feira, 19 de março de 2008
Mos Aracaju: Hino Comentado.
"Corredor da Folia."Letra e música: José Gentil Leite
Eis que raia uma nova aurora
No horizonte do céu cor de anil
(Trecho retirado do guia "Como fazer um hino em 10 fáceis lições".)
Refulgindo na nobre colina
(Refulgir? Quem diabos usa esse verbo na vida real?)
E nas margens tranqüilas do rio
(Tranqüilas até demais.)
Contemplando a beleza infante
Da princesa que então concebeu
O destino bradou nesse instante:
“Abençôo o dia em que nasceu”
(*bocejo*)
Bate forte no peito a esperança
(Isso temos que ter mesmo.)
A alegria de uma criança
(Forçou a barra aqui pra rimar, hein...)
Nesta data querida cantamos
Aracaju, cento e cinqüenta anos!
(O hino foi feito ontem e já tá desatualizado.)
Presidente Inácio Barbosa
(Esse não era o Chacrinha?)
Foi feliz em seu ato cabal:
De Sergipe Del Rei elevando
A capital um pequeno arraial
(Hum, isso explica muita coisa!)
Contratando Basílio Pirro
Engenheiro que então planejou
(Pedreiro... pedreiro...)
Projetando a iminente cidade
Pra um futuro de glória e esplendor
(Parece Aragorn discursando no final do "Retorno do Rei".)
Cajueiro dos Papagaios
É o seu nome que vem do Tupi
(Jure...)
Tu és bela, Cidade Menina
Tuas praias tão lindas, sem fim!
("Sem fim" eu concordo, não afundam nunca... mas lindas?)
Teus recantos de rara beleza
(Frase retirada do guia "Como fazer um hino em 10 fáceis lições".)
São encantos pra quem vem aqui
Deslumbrante morena praieira
(Praieira? Tô achando que foi Jammil quem fez esse hino.)
Nós morremos de amor só por ti
(Exagero do carai.)
Se alguém achar a .mp3 desse hino, por favor, me avise!
Mais pra frente: hino do Rio de Janeiro comentado.
Escrito por
Bruno O. Barros
às
12:16 AM
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