quinta-feira, 22 de maio de 2008

Universo-bolha.

Quando eu voltei para a sala as luzes já haviam sido apagadas e os trailers iniciados. Subi às cegas os degraus que a companhia detentora da maioria das ações daquela empresa que um dia vendera empadas e hoje projeta filmes haviam me colocado como obstáculo e, chegando na fileira onde, há pouco, legitimamente conseguira um assento, surpreendi-me ao vê-lo ocupado por nádegas que não eram minhas. "Com licença, mas esse lugar é meu", disse às nádegas. "Como assim? Você chegou agora." "Não, não, veja bem, eu saí pra comprar aperitivos, mas eu já havia me sentado nesse assento antes." "E cadê os tais aperitivos?", perguntou com um tom de desafio e de zombaria (talvez pela minha escolha de palavras) e, como resposta, puxei um Snickers do bolso. "Não como pipoca." "Tá, mas veja o meu lado, eu cheguei aqui e o local estava vazio." "Eu entendo, não precisa se desculpar." Ele ficou uns instantes em silêncio e disse meio rindo que não estava se desculpando. "Olha, não falta muito para que o filme comece, eu queria muito o meu lugar de volta." "O lugar não é seu, companheiro. Porque não senta ali do lado? O cinema nem está tão cheio. Ali está ótimo pra assistir também." "Em primeiro lugar, não sou seu companheiro, em segundo, porque não senta você em outro lugar? Esse daí é meu." "Prove." No exato momento em que ele falou isso tudo escureceu. Preto absoluto. Por um instante pensei ter cegado e senti um gosto quente subir até a garganta, mas não, na verdade tratava-se daqueles instantes de escuro e silêncio que preenchem o espaço temporal entre os trailers e o filme pelo qual, na maioria dos casos, pagamos o ingresso. "O filme começou." "É, e você está me atrapalhando." "Eu vou chamar o segurança se você não sair do meu lugar." Nesse momento algumas pessoas começaram a reclamar tanto do fato de eu estar em pé quanto do de estar, de certa forma, falando alto durante o filme. "Pode chamar, babaca." Quem falou isso não foram as nádegas larápias, mas um bem apessoado par de seios do seu lado. "E você quem é?" "Minha namorada", respondeu antes as nádegas e completou com "agora vê se pára de encher o saco, não vamos sair daqui só porque você disse que tinha achado esse lugar antes." De súbito, tudo ficou claro. "Olha," disse, "eu sei que não é tarefa fácil submetermo-nos a uma ordem como a que estou a lhe impor estando acompanhado de alguém do sexo oposto. Como possível homem que és, efetuar tal troca seria um fardo duplo. De um lado, sujeitar-se-ias à posição de inferior sob outro alguém do mesmo sexo diante da sua fêmea, e do outro lado terias ainda que caçar, curvado diante do olhar zombeteiro da audiência presente, por outros dois lugares vagos onde poderiam depositar, em paz, suas nádegas e seios. Sendo assim, por ser uma pessoa de coração justo e ciente da delicada posição em que te encontras, cedo-lhe minha vaga." As nádegas e os seios ficaram alguns instantes apenas olhando para mim com uma expressão que, ao meu ver, designava confusão. Por fim, as nádegas me perguntaram: "Porque você falou agora como se estivesse num livro?" "Porque é difícil me enganar o tempo todo. O que te faz crer que não estamos em um?" Ele não respondeu. Caminhei em direção ao assento vago mais próximo e até chegar lá pude ouvir, dentro de mim, os aplausos de todos os presentes. Eram gritos ovação e louvor. Ah, o auto-conhecimento...


Fonte de inspiração: Astronomy Picture of the Day, 07/11/05

2 comentários:

Anônimo disse...

"as nádegas larápias" foi o melhor! :P

Anônimo disse...

Vc quase matou do coração as nádegas larápias e os seios fartos, cara cricri.