terça-feira, 8 de maio de 2007

Abóroras, raízes e ecos.

Tenho a certeza de que se eu passar batom, pintar o rosto, pendurar uma abóbora em cada uma das minhas orelhas, chegar num balcão de uma loja e perguntar se tem camisas listradas tamanho M a primeira coisa que notarão em mim é meu sotaque. Tem sido assim desde que cheguei. Até as pessoas que eu vejo quase todos os dias parecem não se habituar com o meu jeito de falar. Para mim, abrir a boca no Rio é (independente do que eu esteja falando) contar a breve história: "Olá, eu sou nordestino e claramente ainda não me sinto totalmente familiarizado com esse jeito de falar moderno da cidade grande," e só depois dessa introdução a pessoa parece ouvir algo que realmente disse, tipo "onde fica o bebedouro mais próximo?"

Eu não os culpo. Admito até que está cada vez mais esquisito ouvir a minha própria voz. Aqui onde todo mundo fala manso, a brutalidade quase germânica do sotaque sergipano fica em evidência sempre que abro a boca. E com o passar do tempo estou começando a adquirir um estranhamento por esses sons carregados de uma história pessoal que eu mesmo emito. Sabe quando você grava sua voz, depois escuta e não acredita que você realmente soe assim? Pois é. Estou tendo essa sensação sempre que falo alguma coisa.

Mas estou sendo fiel às minhas origens lingüísticas. Apesar de deixar escapar um artigo simpático às vezes, tenho conseguido manter a dureza (quase ignorância) sonora que é o meu sotaque. Uma dureza crua, mas belíssima; versões sonoras dos pés rachados e mãos calejadas dos nossos antepassados.

3 comentários:

Anônimo disse...

Imagino como deve tá sendo engraçado para os cariocas ter um sergipano, leia-se nordestino, na turma. Mas o que axo mais interessante em tudo isso é q eles vão ter q nos engolir, pois enviamos um representante à altura. Afinal, vc fez uma prova concorrida (creio) e fora belissimamente aprovado. Portanto, eles verão q atrás de um povo que carrega uma dureza transcedental, ainda que com os pés rachados e mãos calejadas (do nossos antepassados, de certo) existe uma mente que raciocina, um corpo que expressa e uma competência que fala, que grita, que apregoa - ainda que com o carregado "oxente"!

Confiamos em sua competência Bob!

bjsssss

Anônimo disse...

Aí Bruno, vc é um representante nordestino de alto calibre, continue com sua voz forte, tão forte qto sua personalidade e seu coração. Tenho certeza que com esta voz de nordestino vc está conquistando o Rio, tenho certeza tb que o seu círculo de amizades está aumentando a cada dia.
Por isso digo sempre, eu tiro o chapéu pra vc.
Continue sendo o que vc é.
O mundo agradece por vc estar aqui.
Mainha

Marcelo Almeida dos Reis. disse...

Rapaz, esse lance de sotaque é bem interessante. Se eu chegar aí e vocÊ estiver falando que nem o irmão de Kelma...! Você vai ver minha careta!