Ser herói assusta. A aventura por vir espreita-me todas as noites. Chego a sentir pavor. Por outro lado, trata-se de um medo menor que aquele que sinto quando me olho no espelho e não vejo o herói que penso ser; o garoto à espera do Chamado. Prefiro, aflito, entender que ainda vivo em Tatooine, no Condado, na Rua dos Alfeneiros. Prefiro acreditar, embora mergulhado em dúvidas, que serei iluminado por Obi-wan, Gandalf, Dumbledore. Duvido que a vida se feche por aqui. Ser herói de esquina seria dose. Como Luke e seu Pai, Frodo e Sauron, Harry e Voldemort, quero ter a chance de enfrentar meu Minotauro no final do labirinto. E, invariavelmente, como me promete os mitos, vencer.
Estava lendo pela octogésima vez o capítulo introdutório de “O Herói de Mil Faces” de Joseph Campbell. Senti, como nas sete ultimas vezes, aquela sensação de estar inserido num todo; De que ainda me é possível, mesmo beirando um quarto de século de idade, ser um bobo, mas satisfeito, vencedor.
Que diabos estás falando?, você poderia, tranqüilamente, questionar. Não sabes que estamos todos fadados à derrota? Ou já ouvistes falar de alguém que escapou da Morte? Então, pacientemente, reflito e respondo: Deixando Lázaro e Cristo de lado, não posso deixar de concordar que realmente não é habitual ouvir notícias sobre ressurreições. A Morte é, de fato, o ponto final. No entanto não a vejo como engolidora de vitórias; como motivo para não se buscar vencer. A Morte pode ser um game over frustrante, onde se perdeu muito tempo nas primeiras e ordinárias fases de um jogo; mas pode ser também o fim deste jogo, onde todas as fases foram competentemente visitadas, destrinchadas e superadas. E, até que provem o contrário, eu sou do tipo que gosta de zerar aquilo que jogo, ou, no mínimo, chegar muito próximo do final.
Em “O Herói de Mil Faces” Campbell, explanando sobre a presença da mitologia nos sonhos, sabiamente afirma que o sonho é o mito personalizado; o mito, por sua vez, é o sonho generalizado. Então, refletindo nesse entendimento, questiono: Se o mito está em nós e nós estamos no mito, qual o elemento que define quem são os heróis e quem não são? Qual o fator determinante? O fator está em nós ou está no ar; no etéreo?
Tenho certeza que Joseph Campbell sentia-se exatamente como me sinto quando, narrando sobre a história de Teseu e Ariadne (o herói que matou o Minotauro e sua noiva que o ajudou a superar o labirinto), se questionou:
“Apenas àqueles que não conhecem nem um chamado interno, nem uma doutrina externa, cabe verdadeiramente um destino desesperador; falo da maioria de nós, hoje, nesse labirinto fora e dentro do coração. Ai de nós! Onde está a guia, essa afetuosa virgem, Ariadne, para nos fornecer o Minotauro e, depois, os meios para encontrarmos nosso caminho para a liberdade, quando o mostro tiver sido encontrado e morto?”
Mais tarde, Campbell me enche de esperança:
“Temos apenas que seguir o fio da trilha do herói. E ali onde pensávamos encontrar uma abominação, encontraremos uma divindade; onde pensávamos matar alguém, mataremos a nós mesmos; onde pensávamos viajar para o exterior, atingiremos o centro da nossa própria existência; e onde pensávamos em estar sozinhos, estaremos com o mundo inteiro”.
Ariadne & Teseu
terça-feira, 4 de outubro de 2005
Heróis: Ariadne & Teseu.
Escrito por
Bruno O. Barros
às
7:26 AM
Marcadores: Espelho, Homenagens, Reflexões
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1 comentários:
Com fé em Deus vc vai sim sair de "Tatooine", com ou sem a ajuda do "Obi-Wan", e ainda vai ficar com a princesa e vai levar contigo pra onde vc for! :***
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