quarta-feira, 21 de maio de 2008

Nebula negra.


"Sabia que a soma de todo o tempo que passamos dormindo equivale a um terço da nossa vida?", ela me perguntou. Não falei nada na hora, só olhei e sorri, não valia a pena comentar o quanto eu achava imbecil esse tipo de informação, ou pior, o quanto eu sinto desprezo por quem sai repetindo essas bobagens só porque em alguma noite mal dormida ligou no Discovery Channel e viu algum pseudo-documentário que, por completa falta de competência intelectual do autor, trouxe tamanha bobagem como dado. É, fiquei calado, não queria deixar que aquela irritação invasora me tomasse o momento de glória, afinal, estávamos juntos novamente, acabáramos de reatar laços partidos a lágrimas. Por um lado, diante do perdão que fora-me concedido havia pouco, não custar-me-ia tanto calar após a verbalização do factóide idiota; por outro, minha cabeça borbulhava de respostas a dar-lhe - a maioria delas grosseira, admito. Olhei para ela e, talvez por causa do brilho no seu olhar, achei que o silêncio ficou incômodo. Ela devia estar esperando uma resposta, algum simulacro de surpresa ou - pior - algo inteligente. Sorri amarelo. Eu poderia, ali mesmo, presenteá-la com a resposta que seus olhos frajolas pareciam me pedir. Sim, eu poderia dizer "É mesmo, princesa? Onde você viu isso? Nossa, esse documentário parece bem legal, hein? Poxa, um terço é muito, hein? Que desperdício, não?", ou algo com o mesmo efeito. Desse modo eu lhe concederia aquela sensação que temos quando sabemos que acabamos de falar algo esperto. Quem sabe até, diante desse meu ato de ternura e caridade, ela viesse a me oferecer um bônus: não só estaríamos juntos de novo como passaríamos a noite fazendo amor. No entanto, olhando por outro lado, dar-lhe tal resposta faria de mim uma paródia, uma cópia tosca de mim mesmo. Seria como misturar minhas fezes num copo com leite, depositar seu conteúdo dentro da minha boca e nunca engolir. Passar a vida com aquela mistura indigesta descansando entre minha língua e meu palato. Não, eu não poderia me sujeitar a tamanha baixaria. Por isso, olhei pra ela e comecei: "Olha, eu tenho tanta coisa pra te dizer agora que po--" Então tudo ficou preto. Foi assim que tive o meu primeiro derrame.


Fonte de inspiração: Astronomy Picture of the Day, 22/03/08

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Daniel, O Invisível: "Hoje" [comentada]

Hoje comento mais uma música de Daniel, O Invisível. "Hoje", ninguém sabe, foi feita tendo como base a melodia de "Sem Fantasia" de Chico Buarque. Passei meses completamente aficionado pelo clima depressivo e misterioso dessa música que, na minha opinião, está no TOP 5 do Chico. Escrever "Hoje" foi uma forma de me livrar desse vício que, suspeito, por pouco não me fez mal. Em "Hoje" busquei produzir a mesma atmosfera sufocante de "Sem Fantasia" e até alguns acordes são iguais.

Através da letra me afastei da temática de "Sem Fantasia" (que aborda o término de uma relação entre um rapaz e uma mulher bem mais velha), aproximando-me de um assunto ainda mais etéreo e inexplicável: o sonho.

"Hoje" tem início com uma inversão temporal do falar: "Ontem te vi amanhã com medo de estar querendo perder a mim - que hoje estou buscando evitar tal amanhecer sombrio que espera por nós." Esse primeiro verso (que, sozinho, toma 1/3 da música) descreve um pesadelo que, no ponto de vista daquele que sonhou, tem características premonitórias.

O egoísmo e a insegurança do nosso personagem central se revela nos próximos versos. Trata-se de uma onda crescente de pensamentos que, acompanhados de uma sonoridade cada vez mais empilhada em camadas, findam em ofensas dirigidas à amada (que, possivelmente, uma hora dessas já nem se encontra mais no local).

Clique "play" para ouvir.




"Hoje"
Bruno Barros

Ontem
te vi amanhã
com medo de estar
querendo perder
a mim
que hoje estou
buscando evitar
tal amanhecer
sombrio
que espera por nós...

Quem iria imaginar
te ver livre a pensar
em ver a mim largado enfim?

Pois só assim para findar no
hoje
e organizar
o medo de pensar no medo
de tê-la roubada,
bandida!
Falada,
caída!
Perdida na vida...


Se quiser, compare as duas músicas.

Site Oficial: danieloinvisivel.com
MySpace: myspace.com/danieloinvisivel

segunda-feira, 28 de abril de 2008

H no início.

"Qual a sua cor predileta?" "Azul," respondeu firme. "Você sabia que azul é a cor favorita da maioria das pessoas?" "Mesmo?" "Mesmo." "Onde você viu isso?" "Não lembro, mas não importa... acho que faz sentido. Tudo o que não podemos ter é azul." "Tipo a calcinha daquela menina?" "Tipo o céu o mar." Ele não contestou. Dei outra mordida na coxinha de galinha e suguei um pouco de refrigerante de cola light pelo canudo branco com listras vermelhas verticais. Cerca de dez minutos depois eu estava sozinho sentado num banco da praça que fica em frente ao escritório só esperando o tempo passar, se é que podemos colocar as coisas nesses termos, já que deixar de passar nunca foi uma característica do tempo. Uma mulher de meia idade muito bem apessoada se aproximou como se fosse perguntar alguma coisa, mas apenas sentou-se ao meu lado e puxou um celular de uma bolseta arroseada. Em seguida, digitou uns números. "Oi? Sou eu. É, estou sabendo, e agora?" Enquanto ela falava, eu não conseguia tirar os olhos dos seus peitos. Eram extremamente bem formados e convidativos. Fiquei pensando, eu poderia muito bem arrancar-lhe o telefone, dizer cala a boca e encher aqueles peitos de beijos molhados enquanto friccionava meu púbis em suas ancas, mas optei por não externizar a idéia. Mas antes mesmo que eu conseguisse espanar a sujeira dos meus pensamentos, a mulher desligou o telefone e, sem olhar para mim, mas certamente para mim, perguntou: "É inacreditável, né?" "O quê, exatamente?", perguntei um pouco temeroso. "Você não ficou sabendo do novo pecado capital?" "O de ser rico?" "Isso." "Vi na internet hoje cedo." "A Igreja é muito ipócrita. Logo quem, o Vaticano... que moral eles têm para dizer que é pecado juntar dinheiro?" "Na verdade o pecado é juntar muito dinheiro. Pelo menos foi o que eu li." "Você é cristão, né?" Fiquei meio puto, mas respondi. "Ainda bem," ela disse, "eu acho todo cristão ipócrita." "Olha, desculpa, mas hipócrita tem h." "Como é?" "Hipócrita se escreve com h no início." Ela pareceu não entender e, virando o rosto para a esquerda, riu de leve. Aproveitei para olhar um pouco mais para o seu par de peitos. "Olha, tenho que ir." "Fique mais um pouco," pedi, embora a sua presença de certa forma me irritasse. "Estão me esperando no escritório." "Qual o seu nome?" "Michele, e o seu?" "Sávio." "Sávio," ela disse enquanto abria a bolsa, "pegue esse dinheiro e, por Deus, gaste!" Fiquei meio confuso, mas aceitei as duas notas de vinte reais. Antes que ela virasse dei-lhe um abraço e dois beijos no rosto. Ela corou, virou e se foi. Andei até o trailer da esquina e pedi "mais uma coxinha, por for favor."

Fonte de inspiração: Astronomy Picture of the Day, 28/04/08

domingo, 27 de abril de 2008

Estruturas incomuns no centro da nossa galáxia.

Só faltava mesmo a recorrente febre para fazer do nosso personagem uma paródia grotesca dos anti-heróis do realismo russo. Sim, o peso da pergunta resultou numa livresca pausa dostoievskiana. E, se bem recorda-se, ela perguntou "e você?", e mesmo que por si só pequenina sentença não detenha toda a carga dramática prometida por quem agora vos escreve, ao tomarmos conhecimento do conteúdo da conversa posterior à sintética interrogação, tudo se clareia. Sem rodeios, pois disso vivem apenas aqueles que não sabem onde querem chegar: ela, antes de fazer tal pergunta, falava dos seus sentimentos pelo quase febril Pedro Servil. Se tivesse sido fácil declarar a reciprocidade desejada por ela, Pedro assim o faria. Na verdade, mesmo se fosse difícil, Pedro não demoraria para presenteá-la com o esperado "eu também". No entanto, não era fácil, tampouco difícil. Era - na verdade - impossível. Não havia, em Pedro, qualquer tipo de fragmento de sentimento mesmo que somente superficialmente similar àquilo que brotava a jorros do peito daquela que o amava. Sendo assim, depois da supracitada pausa, Pedro disse apenas: "que horas são mesmo?", "Onze e doze.", "Já? Preciso ir... fiquei de encontrar o pessoal pra almoçar no Antônio's.", "Tá...", "Beijo.", "Beijo." E assim Pedro beijou-lhe apaixonadamente os lábios enquanto, com a mão esquerda, apertava-lhe a cintura.

Fonte de inspiração: Astronomy Picture of the Day, 27/04/08

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Momento clássico: trindade.

"Digam xis!"

sexta-feira, 28 de março de 2008

Outro objeto (igual) cai do céu, pode ser um dos testículos de Optimus Prime.

Hoje, três dias depois de um objeto não-identificado ter caído no interior de Goiás, um outro objeto (bastante similar ao primeiro) caiu na Austrália.

Segundo as notícias, se tais objetos forem lixos espaciais (possibilidade menos assustadora) oriundos de um mesmo equipamento, o mistério seria o porquê desse intervalo de 3 dias entre as quedas.

Eu, sinceramente, acho que Optimus Prime resolveu converter-se ao estatuto de eunuco.

Globo.com (1)
Globo.com (2)
EPTV.com

terça-feira, 25 de março de 2008

Esfera cai do céu, ninguém sabe o que é.

Uma sinistra esfera metálica de origem desconhecida caiu em Goiás hoje. Assim como é típico do ser humano médio, sinto um delicioso formigamento diante de fatos misteriosos como esse. A criatividade vai aos céus. Pena que em pouco tempo alguém arranjará uma explicação para o fato.

Ao ver essa notícia, quem já assistiu Donnie Darko logo vai lembrar da turbina sem avião que mata o protagonista que dá nome ao filme. Na verdade, a turbina o "mata" (com aspas) e não só o "mata" como gera um revertério no espaço-tempo, que entraria em processo de loop eterno caso Donnie não aceitasse o seu destino e o fim do mundo; do seu mundo.

Quem será o Donnie Darko goiano que "escapou" da misteriosa esfera? Será que o Donnie caipira vai aceitar o fim do seu mundo? Estamos todos a sua mercê.

Fontes:
Globo.com
UOL

quarta-feira, 19 de março de 2008

Mos Aracaju: Hino Comentado.

"Corredor da Folia."

Hino de Aracaju
Letra e música: José Gentil Leite

Eis que raia uma nova aurora
No horizonte do céu cor de anil
(Trecho retirado do guia "Como fazer um hino em 10 fáceis lições".)
Refulgindo na nobre colina
(Refulgir? Quem diabos usa esse verbo na vida real?)
E nas margens tranqüilas do rio
(Tranqüilas até demais.)

Contemplando a beleza infante
Da princesa que então concebeu
O destino bradou nesse instante:
“Abençôo o dia em que nasceu”
(*bocejo*)

Bate forte no peito a esperança
(Isso temos que ter mesmo.)
A alegria de uma criança
(Forçou a barra aqui pra rimar, hein...)
Nesta data querida cantamos
Aracaju, cento e cinqüenta anos!
(O hino foi feito ontem e já tá desatualizado.)

Presidente Inácio Barbosa
(Esse não era o Chacrinha?)
Foi feliz em seu ato cabal:
De Sergipe Del Rei elevando
A capital um pequeno arraial
(Hum, isso explica muita coisa!)

Contratando Basílio Pirro
Engenheiro que então planejou
(Pedreiro... pedreiro...)
Projetando a iminente cidade
Pra um futuro de glória e esplendor
(Parece Aragorn discursando no final do "Retorno do Rei".)

Cajueiro dos Papagaios
É o seu nome que vem do Tupi
(Jure...)
Tu és bela, Cidade Menina
Tuas praias tão lindas, sem fim!
("Sem fim" eu concordo, não afundam nunca... mas lindas?)

Teus recantos de rara beleza
(Frase retirada do guia "Como fazer um hino em 10 fáceis lições".)
São encantos pra quem vem aqui
Deslumbrante morena praieira
(Praieira? Tô achando que foi Jammil quem fez esse hino.)
Nós morremos de amor só por ti
(Exagero do carai.)

Se alguém achar a .mp3 desse hino, por favor, me avise!

Mais pra frente: hino do Rio de Janeiro comentado.

terça-feira, 18 de março de 2008

Mos Paulo Afonso: Hino comentado.

"Copa Vela."

Sempre, sempre, sempre vi Paulo Afonso como meu Tatooine. Reconheço, porém que trata-se de uma analogia pouco acurada. Se pensar melhor logo verei que fica melhor entender Tatooine como a versão de George Lucas do Terceiro Mundo, enquanto Paulo Afonso seria minha Mos Eisley e Aracaju minha Mos Espa.

Faz tempo que não vou para Paulo Afonso e às vezes fico morrendo de vontade de dar um pulo lá pra ver como andam as coisas: a velha rua onde eu morava, o bar da pracinha onde meu pai bebia cerveja, a minha velha casa, o horrível quintal onde o gato da vizinha comeu meu pintinho de estimação. E com o passar dos anos sinto que minha Mos Eisley fica cada vez mais distante. Fico imaginando se Luke visitou Tatooine entre os Episódios V e VI unicamente com o intuito de salvar Han das garras de Jabba, ou se no fundo havia nele um desejo secreto de revisitar a fazenda onde passou a infância...

Acho engraçado o gentílico de Paulo Afonso ser pauloafonsino. Mas andei lendo um bocado sobre a cidade e o que mais me interessou foi o hino. Abaixo, o hino comentado (em vermelho), clique play para ouvir:





Hino de Paulo Afonso
"Paulo Afonso, Cidade de Infinita Beleza"
Letra e música: Oscar Silva / Vilma Silva

Guerreiros que enfrentam a batalha
(Que batalha?)
firmando os pés na terra da magia
(Ah, a batalha de Mordor...)
no rosto o suor, são homens combatentes
("Suor"... concordo.)
que têm nas mãos a força da energia
(De fato, tem a usina lá.)

E erguem a bandeira da coragem
(Pô, todo hino tem isso.)
Com armas empunhadas noite e dia
(Isso é verdade.)
Valentes em ação é um só coração
(Tá.)
Simbolizando a nossa harmonia
(Arma simbolizando harmonia? Hum...)

Nem mesmo a luz do sol
E o pulso deste rio
Conseguiram impedir
Este grande desafio
(O último a desafiar Deus foi o capitão do Titanic...)

Paulo Afonso, Paulo Afonso,
Cidade de infinita beleza
(Bonita é, mas infinita é foda...)
Paulo Afonso, Paulo Afonso,
Criada pela própria natureza
(Jure...)
Paulo Afonso, Paulo Afonso,
Lugar de encantos mil
(Todo hino tem isso, é pra rimar com "Brasil".)
És a capital da energia
Riqueza do nosso Brasil
(Não disse...)

O rio São Francisco é tua origem
Nascendo lá na serra da Canastra
(Canastrão, hein?)
E sobre o solo vem, formando cachoeiras
Iluminando o céu da nossa pátria.
(Cachoeira iluminando o céu?)

Tu és o braço forte que sustenta
(Frase retirada do guia "Como fazer um hino em 10 fáceis lições".)
A fonte inesgotável que não pára
(Mais uma referência à hidrelétrica.)
O brilho da manhã, rasgando
Ao meio o véu
O mundo já conhece a sua glória.
(Exagero.)

Nem mesmo a luz do sol
E o pulso deste rio
Conseguiram impedir
Este grande desafio
(Lembra o que aconteceu com o Titanic, né?)

Em seguida: Mos Aracaju e o seu hino comentado...

sexta-feira, 7 de março de 2008

Minha heroína.