Sabe quando alguém fala a palavra "mentira" ao mesmo tempo em que finge estar espirrando? Qual a real graça disso? Alguém pode me dizer? Caralho!
Bom, deixa eu me recompor...
Confesso que, aqui, estou partindo do princípio de que essa atitude de chamar alguém de mentiroso através de um falso espirro tenha, em princípio, uma finalidade de ordem cômica. Falo isso porque na totalidade dos casos que presenciei, as pessoas riam daquele que projetava o espirro para, em seguida, o próprio rir de si mesmo; deixando, na maioria dos casos, o alvo do espirro acusatório absolutamente sem graça.
Disso, acredito que o fato do acusado desconcertar-se diante da situação é um forte indício de que a maioria de nós consegue distinguir um espirro original desse espirro que articula verbalmente a palavra "mentira". Então, se de fato somos dotados de tais faculdades de distinção, eliminamos a possibilidade desse espirro falso ter como pretensão o honrado objetivo de alertar uma terceira pessoa das possíveis inverdades contidas na narrativa do acusado.
Se assim fosse, a mensagem passada do espirrador para a humilde vítima das pretensas mentiras do narrador seria a seguinte: "Querido amigo, não deves estar ciente do que está a lhe acontecer, mas na verdade estais sendo vítima de um verdadeiro bandido; refiro-me, claro, ao malévolo narrador ao qual agora escutas com atenção indevida; sua narrativa é recheada de inverdades que visam, como é natural de todas as inverdades, destruir a sua felicidade e, por fim, a sua vida; por isso, presta atenção nesse meu código."
Pensando bem, sejamos mais prudentes nessa análise. Alguém poderia contra-argumentar que ao objetivar tal alerta não necessariamente, em princípio, tal espirro também tomaria por rumo a completa discrição. Em outras palavras, cogitemos a possibilidade daquele que espirra não ter a mínima preocupação em esconder do acusado de mentir a ajuda que está a prestar para a segunda pessoa, que ouve passivamente e, por que não, amigavelmente as supostas falácias. Talvez, assim, a honraria se mantivesse. Pensando assim, o objetivo do espirro falso seria alertar um desatento ouvinte das mentiras do narrador sem preocupar-se com o fato do narrador estar presente e ciente do alerta.
Suponhamos tal possibilidade somente afim de pretender rigidez e seriedade na nossa argumentação. Portanto, ao pensarmos em tal possibilidade, o acusador, ao espirrar, estaria passando a seguinte mensagem para o narrador: "Apesar de estares certo de que estamos caindo passivamente nessa sua história recheada de nojentas inverdades, deverias estar certo de que eu possuo as faculdades mentais necessárias para dar conta não só de identificar suas porcas mentiras, como também de alertar todos os ouvintes através de um falso código que, no fundo, sei que será compreendido também por ti, o que te coloca numa posição de absoluta humilhação diante dos risos daqueles que antes te adoravam, maldito."
Na verdade, a possibilidade ou a impossibilidade do que foi levantado no penúltimo parágrafo em nada afeta a real condição essencialmente acômica do falso espirro. Mesmo que o espirrador saiba que o acusado entenderá sua pseudo-codificação, o falso espirro ainda não deveria provocar a hilaridade, visto que não passaria de uma agressão sem qualquer argumentação dirigida a um atencioso narrador.
Então, porque bananas as pessoas riem desse espirro-código?
Sugiro aqui uma hipótese que origina-se do fato de que são muitas as expressões acômicas que por alguma subversão lingüística perdida no passado vieram a tornar-se hilárias em alguma situação específica. Tal especificidade, no entanto, esvanece-se no tempo, restando apenas o comum ato social de rir de coisas que não fazem sentido nenhum. Tal seria o caso do espirro acusatório. Nesse caso, rimos mais por educação ou por uma miserável pena daquele que espirra enquanto balbucia a palavra "mentira".
Dessas duas possibilidades, sinto-me inclinado a acreditar que o riso se dá mais por pena mesmo. Mas não é uma pena simplória e reduzida à condição de sentimento de conceituação digna de um mini-dicionário escolar. É uma pena que ao mesmo trás consigo também medo e compaixão. Como quando rimos sem vontade da piada contada pelo nosso chefe ou pela nossa recém-conquistada namorada.
Por fim, o verdadeiro código dessa situação que aqui analisamos não reside no espirro, mas no riso daqueles que, no fundo, desprezam aquele que espirrou ao mesmo tempo em que, humilhantemente, tentava verbalizar a palavra "mentira". Dessa forma, a mensagem codificada e emitida por tal riso é a seguinte: "Infeliz e detestável indivíduo que agora finges ser portador de um resfriado, será que não percebes que a mistura que executa entre o ato animal de espirrar e a verbalização da palavra 'mentira' nada mais faz do que colocar-lhe numa posição de total inferioridade diante de nós, detentores de raciocínio claro o suficiente para julgar por conta própria o que desejamos tomar por verdade ou não? Será que não percebes que a verdade não é aquela que nosso amigável narrador emite, ou muito menos aquela que, por clara ineficiência intelectual de tua parte, alerta-nos? A verdade é nada mais o resultado dos nossos filtros mentais; é um caleidoscópio de conexões de realidades distintas, mas indistinguíveis. Portanto, por acreditar que é o máximo que merece, ofereço-lhe o meu riso na esperança de que um dia saia dessa gaiola que criastes para ti mesmo."